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Café, Camomila e Cheiro de Livro Novo

Summary:

Jihoon é um ômega que leva a vida calmamente, gosta de passar despercebido e não possui muitas experiências amorosas. Sua aversão ao cheiro forte e característicos dos alfas ajudava para que Jihoon continuasse apenas vivendo histórias de amor pelos livros e experiências que seus amigos compartilhavam consigo, e ele estava bem assim.

O problema começa quando, ao conhecer Kwon Soonyoung, um alfa com cheiro de café e livros, Jihoon passa a sentir e vivenciar coisas as quais nunca havia entendido, só ouvido dizer.

[Soohoon abo] • [Long fic]

Chapter 1: Grãos de Café

Notes:

(See the end of the chapter for notes.)

Chapter Text

Eu odeio acordar cedo. Sempre odiei.

O som do despertador é uma das coisas que mais me irrita, principalmente nos dias de inverno, quando tem neve caindo lá fora e minha cama é tão aconchegante e quentinha.

Sentei na cama e senti um calafrio, provavelmente estava perto dos dez graus. Resmunguei sozinho, pensando em mil e uma desculpas para faltar a aula naquele dia — mesmo sabendo que minha mãe me repreenderia em qualquer cenário —, acabando por me levantar e começar a me vestir.

Estava realmente frio, então tratei de colocar várias peças de roupa para me aquecer. Como sou um ômega, não consigo me esquentar tão facilmente quanto os alfas e betas — ou sem a presença de um deles —, então me enchia de roupas, já que eu também odeio passar frio.

Peguei minha mochila jogada no chão e desci até a cozinha, onde meus pais tomavam café. Minha mãe, Daeun, é uma alfa e meu pai, Taesuk, um ômega, eu sou filho único, mas meus pais nunca demonstraram querer mais um filho.

— Bom dia, filhote — sorriu minha mãe, aproximando-se e deixando um beijo na minha testa.

Em resposta, apenas resmunguei. Eles já estavam acostumados com meu mau humor matutino, visto que meu pai é igual. Tomamos o café em um silêncio confortável até eu me levantar, anunciando que iria para escola. Peguei o almoço que minha mãe preparou e saí de casa.

O caminho até a escola não era longo, cerca de dez minutos de caminhada, mas o clima frio deixava cada passo mais demorado, o vento cortante deixava minhas mãos geladas e a ponta do meu nariz vermelho. A manta branca em meu pescoço cobria minha boca, e o gorro da mesma cor protegia meus ouvidos. Eu sabia que estava parecendo um tofu, mas sentia muito frio para me importar.

Quando avistei o portão da escola, dei graças aos céus, e apressei um pouco o passo para chegar mais rápido. Mas claro, Lee Jihoon não podia começar o dia sem se estressar com alguém. Dessa vez, foi quando alguém passou correndo e esbarrou em mim, provavelmente algum alfa estabanado e mal educado, empurrou-me com tanta força — ok, talvez nem tanta —, que quando percebi, eu estava no chão. Ter usado as mãos como apoio pareceu uma péssima ideia quando o frio fez a dor ficar mil vezes pior.

Estava tão distraído amaldiçoando aquele alfa e toda sua família que nem notei quando uma mão foi estendida na minha direção. Ergui os olhos para a pessoa.

— Você está bem? — perguntou um garoto, os olhos pequenos mostravam certa preocupação. — Aquele idiota quase te jogou longe.

Segurei a mão dele e logo fui puxado do chão muito facilmente, mesmo que suas mãos estivessem trêmulas pelo frio. Tem a força de um alfa — pensei.

— Obrigado — respondi baixo, voltando a colocar as mãos nos bolsos. — Estou bem.

— Está indo para escola, certo? — perguntou o suposto alfa. — Eu lembro te ter visto você pelos corredores, mas você não deve se lembrar de mim, não é? — riu ele, caminhando ao meu lado. Já eu, ainda estava processando o tombo que levei.

— Não, acho que não — respondi sincero, andando com a cabeça baixa. Meu nariz havia entupido por causa do frio, então não conseguia sentir o cheiro do garoto.

— Imaginei, mas também você está sempre lendo um livro — apontou ele, fazendo-me franzir as sobrancelhas. Entretanto, não era uma total mentira. — É Jihoon, certo?

— Sim, Lee Jihoon — falei, virando o rosto para vê-lo melhor. — E você?

— Sou Kwon Soonyoung — estendeu a mão formalmente. Esgueirei o olhar, mas acabei por apertar a mão dele. — Muito prazer — sorriu abertamente. — Você está no segundo também, né? Quantos anos você tem? Dezessete?

— Ah, sim… — murmurei, levemente atordoado pela energia que Sooyoung exalava. Como alguém era tão bem humorado pela manhã? — Eu vou indo, Soonyoung — interrompi o maior, que falava quase sem parar. — Minha sala é para cá — menti.

— Tudo bem — sorriu novamente. — Legal falar contigo. Até mais.

— Até — disse, baixinho.

Assim que ele continuou seu caminho, segui pelo corredor, procurando meus amigos.

— Por que estava falando com Soonyoung? — a voz de Jeonghan hyung soou atrás de mim.

Após me recuperar do pequeno susto, revirei os olhos.

— Um idiota me derrubou perto do portão, Sooyoung me ajudou a levantar e depois não parou de falar — expliquei a história, vendo Jeonghan rir e bater em meu ombro.

— Ele é falante mesmo — constou o Yoon.

— De onde vocês se conhecem? — perguntei, ajeitando a alça da mochila antes de começar a andar ao lado de Jeonghan, aproveitando-me do calor característico de alfa que ele tinha.

— Ele é amigo do Seungkwan, e eu falei com ele em algumas festas que o Boo faz. Ele é muito falante mesmo — contou Jeonghan, rindo baixo, suas mãos acariciavam o casaco felpudo que eu usava. — Mas ele é fofo, o que quase é incomum para um alfa.

— Ele é alfa? — perguntei, olhando para o maior um pouco surpreso.

— É, sim. Apesar da personalidade e do cheiro peculiar — explicou.

— Você também é assim — apontei, vendo o Yoon rir e dar de ombros. — Seu cheiro é um dos poucos que eu consigo suportar.

— Esses alfas de hoje em dia, né? — brincou, empurrando-me com o ombro.

— Não entendo como você é tão bem humorado logo numa segunda de manhã — resmunguei os mesmos pensamentos de mais cedo quanto à Sooyoung.

Jeonghan apenas deu de ombros.

Seguimos pelo corredor enquanto o alfa tagarelava sobre Seungcheol, um ômega pelo qual estava apaixonado e namorava há quase dois anos — e todos sabiam disso —, eu já estava acostumado com meu amigo falando sem parar, até aprendi a filtrar suas falas e processar somente o que era importante. Nesse caso, nada.

 

[...]

 

Assim que Jeonghan me deixou na porta da minha sala, tomei meu lugar no fundo perto da janela. O professor de física sempre chegava atrasado, então todos os alunos estavam conversando — uns mais alto do que outros. Como Wonwoo — um outro amigo meu — ainda não havia chegado, eu fiquei quieto em meu canto, sem muita coisa para fazer.

Foi quando lembrei do livro que eu estava lendo guardado na minha mochila. Me virei na cadeira e achei o bendito entre alguns cadernos e apostilas.

Ensina-me a viver

Minha mãe havia achado esse livro em algumas caixas dela e deu-o para mim, sabendo que eu gostava de ler. Ela também conhecia minha preferência secreta por romances, então achou que eu poderia gostar do livro.

Assim que abri na página marcada, vi a silhueta alta de Wonwoo chegar e se jogar na cadeira à minha frente, respirando ofegante.

— Wonwoo, pelo amor de Deus — ralhei consigo, fechando o livro e o deixando embaixo da mesa. — Você precisa começar a dormir mais cedo, não dá para chegar atrasado três dias de uma semana composta com cinco.

— Eu estou muito cansado para te ouvir agora, Jihoon — murmurou, encostando a cabeça na parede e fechando os olhos, enquanto puxava o ar pesadamente para os pulmões.

Neguei com a cabeça, empurrando a carteira para um pouco mais perto da dele.

— Fala sério, o que você estava fazendo dessa vez para acordar atrasado? — perguntei, apoiando meus cotovelos sobre a mesa e meu rosto sobre as mãos — me arrependendo muito rapidamente pelo quão frias elas estavam.

— Eu fiquei jogando online com uns meninos — contou ele, ajeitando os óculos redondos. — Acabamos perdendo a noção do tempo.

— Sei — disse ajeitando o caderno de física na mesa quando o professor chegou na sala, pedindo desculpas pelo atraso. — Começa a dar um rumo na sua vida, senão você vai acabar levando bomba por tantos atrasos.

— De novo: — ele falou baixo, tirando os materiais da mochila escura —, muito cansado para ouvir você.

— Essa sua surdez é muito seletiva — resmunguei e logo ficamos em silêncio para ouvir a aula.

 

[...]

 

Quando o sinal para o intervalo tocou, a maioria dos alunos correram para fora da sala. Com medo de ser atropelado por esse bando de desesperados, eu fiquei pra trás esperando eles saírem e segurei Wonwoo para que me esperasse. É muito fácil de mandar no Jeon, mesmo ele sendo um alfa com A maiúsculo, ele fazia minhas vontades quando eu pedia. O cheiro dele de limão é forte e característico, mas eu o acho suportável.

Andamos até a cantina à procura de Jeonghan, que estava sentado em uma das mesas com Seungcheol, seu namorado. Era até desconfortável pensar em comer enquanto os dois estavam no maior love — para não dizer que eles estavam praticamente tentando se engolir —, felizmente eles pararam quando chegamos perto e sentamos na frente dele. As orelhas e bochechas de Seungcheol estavam vermelhas, enquanto ele escondia o rosto do peito do Yoon, envergonhado com a situação.

— Obrigado por pararem, não ia conseguir comer com vocês se pegando na nossa frente — falei abrindo meu almoço. Jeonghan revirou os olhos, abraçando o Choi.

— Eu acharia difícil olhar para outra coisa — ouvi uma voz dizendo e ergui o olhar, vendo uma garota sorrindo atrás do casal à minha frente.

— Aish, sua tarada — Jeonghan ralhou, batendo de leve no braço coberto pelo moletom amarelo. — Vai ficar com seu ômega, Somin.

— Ele está em casa, ficou gripado por causa do frio — explicou ela, apoiando as mãos sob a mesa e sorrindo.

Jeon Somin é uma das garotas populares do colégio, e não era atoa, não. Ela é uma alfa, bonita, com cheiro marcante e, acima dessas coisas bestas, ela é forte, confiante e legal com a grande maioria das pessoas.

— Vou passar lá depois da aula e levar um chocolate quente para ele — ela completou.

— Jinseok é um ômega de sorte — murmurei baixo, mexendo em minha comida quando fui surpreendido como a alfa que, abruptamente, se aproximou de mim, me fazendo recuar um pouco e olhá-la assustado.

— Não seja por isso, fofinho — ela disse, aproximando seu rosto do meu, enquanto eu continuava me afastando. Podia ouvir os demais presentes na mesa rindo baixo pela cena. — Eu posso comprar um para você também, se quiser — sorriu, piscando um olho.

— Somin, para. Você vai quebrar o Jihoon — Wonwoo interferiu, passando seu braço — para lá de pesado — sob meus ombros e me puxando na direção dele. — Ele é um ômega muito tímido.

— Me poupe, Wonwoo — resmunguei, me afastando de si. — Obrigado, Somin, mas eu estou bem — falei encarando a alfa.

_ Tudo bem — ela sorri e ajeita a postura. — Mas se quiser, pode passar na enfermaria e pedir algo para desentupir seu nariz — falou, tocando o seu próprio.

— Como…?

— Sua voz tá um pouco fanha e você sempre torce o nariz quando eu chego perto, já ouvi você resmungando que meu cheiro é muito forte — explicou Somin, exibindo um sorriso orgulhoso pelas evidências ditas por si. — Não precisa pedir desculpas — ela disse, assim que eu abri a boca. — Agora eu vou indo. Tchau, nenês.

Assim que a alfa saiu, voltei a sentar direito no meu lugar, ignorando as risadinhas dos demais.

— É impressão minha ou tá todo mundo reparando em mim agora? — perguntei, olhando os três presentes ali. — Primeiro Sooyoung e agora Somin, o que tá acontecendo?

— Ah, Jih — Jeonghan começou, jogando uma mecha do cabelo longo para trás do ombro. — O que acontece é o seguinte: você tenta ser invisível, mas você chama atenção naturalmente.

— Eu nunca tentei ser invisível — argumentei, voltando a comer. Ora, só faltava essa.

— Tenta, sim — Wonwoo quem falou. — Pode até fingir que não, mas você tenta.

— Já tô me arrependendo de ter perguntado — suspirei, terminando meu almoço. — Eu vou até a enfermaria pegar a coisinha que a Somin sugeriu — disse levantando-me e saindo da cantina.

Eu sei que, de certo modo, eles têm razão. Eu tento ser invisível, mas não é como se eu acordasse e pensasse: como posso ficar mais invisível hoje?

Eu simplesmente não gosto de chamar atenção, nunca gostei. Minha aparência e meu cheiro já chamam atenção o suficiente, eu já mal consigo lidar com os poucos alfas e betas que se aproximam, fora ficar com fama de “ômega que se faz de difícil”.

Eu já estava agoniado de não conseguir respirar pelo nariz quando avistei a enfermaria, eu estava tão perto quando, ao desviar de uns alunos, acabei me chocando com alguém, derrubando todos os seis livros que a pessoa levava nos braços.

— Droga, me desculpe — falei me abaixando para ajudar a pessoa a recolher seus livros.

— Oi, de novo — ergui meu olhar, vendo o sorriso de Sooyoung à minha frente. Muita coincidência ou muita ironia? Eu mal sabia da existência do garoto até hoje e já fiz o favor de derrubar suas coisas no chão.

— Oi — respondi, vendo ele se abaixar, assim como eu, e recolher os livros espalhados pelo piso. — Desculpe pelo esbarrão.

— Tudo bem, não se machucou? — perguntou, sem tirar os olhos de mim. Eu focava em recolher as coisas, mas sentia seu olhar me queimando. Neguei com a cabeça.

— Aqui — estendi os livros para ele após levantarmos. — Está lendo todos esses livros? — perguntei curioso, após ver alguns exemplares bem grossos.

— Ah, não — ele sorriu. Ele fazia muito isso. — Estavam na sala de literatura, só estou levando para a biblioteca.

— Entendi — murmurei, olhando-o por uns segundos, notando um brilho dourado correndo por seus olhos, tão rápido quanto um piscar. — Bom, eu vou indo, Sooyoung, até mais — sorri levemente, antes de seguir caminho pelo corredor.

— Até — ouvi-o dizer.

 

[...]

 

Iria me lembrar de agradecer Somin pela dica mais tarde. A mistura de inúmeros cheiros pelos corredores do colégio não era uma das melhores coisas, mas foi ótimo desentupir o nariz e poder respirar fundo. Até assisti o restante das aulas mais calmo, sem aquela agonia de ficar fungando a cada três segundos, conseguindo me concentrar melhor nas explicações dos professores. E quando vi, já estava na hora da última aula do dia e também minha favorita: literatura.

Assim que tomei meu lugar na sala, Wonwoo sentou ao meu lado resmungando sobre a matéria, como ele fazia toda vez.

— Como você pode gostar tanto de literatura, Jih? — ele questiona, mexendo no capuz do meu casaco felpudo. Farei uma nota mental de não usar ele novamente, já que todo mundo ficava acariciando.

— Eu gosto de como a gente pode entender toda história do nosso país apenas pelas palavras de outra pessoa — dei de ombros, pegando meu fichário.

— Eu não entendo bulhufas — comentou o Jeon. — Mas é fofo ver você todo animado.

— Vai se foder, Wonwoo — ri, tentando afastar sua mão que ainda acariciava os pelinhos do casaco.

 

[...]

 

O último horário passou rápido — infelizmente para mim —, e logo todos estavam saindo da sala em direção a saída. Wonwoo havia saído mais cedo com uma desculpa esfarrapada qualquer, Jeonghan e Seungcheol também já deveriam ter ido embora. Então, eu estava sozinho naquele mar de pessoas desesperadas para irem para suas casas.

Fiquei num cantinho perto do portão, sentado em um banco de pedra que havia ali, esperando a muvuca de gente diminuir para que eu pudesse sair sem esbarrar em ninguém.

Estava distraído observando os alunos, quando ouvi alguém se aproximar e sentar ao meu lado. E então, era a terceira vez que Sooyoung e eu estávamos próximos no mesmo dia em que nos conhecemos. E foi a primeira vez que eu consegui sentir o cheiro dele...

Olhei para ele, quase questionando o que ele queria, quando ele mostrou um exemplar de Ensina-me a Viver.

— Esse livro é seu? Eu achei embaixo da mesa na sala de física — contou, um sorriso mínimo permanecia no canto de seus lábios.

— Como sabia que era meu? — perguntei, um pouco espantado depois de mexer na mochila e ver que, realmente, o livro não estava ali.

— Tem seu cheiro nele — explicou, abrindo o sorriso quando peguei o objeto de suas mãos.

— Entendi — falei, não conseguindo desviar os olhos do rosto dele. — Obrigado.

— De nada — ele disse, levantando-se e ajeitando a alça de sua mochila sobre os ombros. — Até amanhã — despediu-se, sorrindo abertamente e acenando.

Assim que Sooyoung saiu, levei minha mão até o peito, onde meu coração batia acelerado, por alguma razão a qual eu não sabia. Entretanto, em minha mente, só martelava o fato do maior cheirar como livros e café fresco.

— Mas que merda é isso? — murmurei baixo, apertando o tecido grosso que me cobria o peito.

Notes:

Playlist da fic: https://open.spotify.com/playlist/5ymoK0D7gknwVAQ0Vn64Vm?si=FMCSHLI9Tza-UtTVQKD4pA