Chapter Text
(Harry Potter)
A lua cheia brilhava forte no céu noturno. Uma brisa leve balançava as cortinas da sala de estar enquanto Lily sentava-se no chão com Harry no colo. O pequeno bebê gargalhava, apertando seus dedinhos ao redor do dedo de sua mãe. Seu cabelo preto desgrenhado, idêntico ao de James, parecia uma bagunça adorável.
James observava a cena de pé, encostado no batente da porta com um sorriso orgulhoso enquanto girava a varinha distraidamente entre os dedos. Era difícil acreditar que momentos assim, tão simples e tranquilos, pudessem existir em meio ao caos que o mundo bruxo enfrentava.
— Ele vai ser um problema, não vai? — James brincou, apontando com a varinha para Harry, que dava chutes animados. — Com toda essa energia, ele vai ser um encrenqueiro.
Lily soltou uma risada suave, os olhos verdes brilhando.
— Encrenqueiro? James Potter, você sempre foi o primeiro a provocar encrenca, então nem venha dizer que o Harry é o problema.
James forçou um sorriso e se aproximou, ajoelhando-se ao lado de Lily. Ele acariciou o cabelinho de Harry com carinho, seu sorriso enfraquecendo um pouco.
Lily percebeu que o marido parecia tenso e inquieto durante todo o dia. Aproximou a mão do rosto do marido, erguendo sua cabeça, fazendo-o lhe olhar.
— Qual o problema, querido? Você não parece muito bem.
James mordeu o lábio, desviando o olhar e soltando um suspiro.
— Eu não sei. Me sinto ansioso, como se algo não estivesse certo. Eu acho… — ele fez uma pausa, tentando organizar seus pensamentos. — Eu acho que eu só queria que ele pudesse crescer sem medo. Que pudesse brincar lá fora, sem ter que se preocupar com nada disso…
Lily inclinou a cabeça, seu olhar cheio de compreensão. Com um toque suave, acariciou o rosto de James, seus dedos deslizando pela barba rala. Ela sabia exatamente o que ele sentia; o peso da responsabilidade em proteger aquela pequena vida era imenso.
— Ei… — disse ela com ternura, mantendo os olhos fixos nos de James. — Nós vamos garantir que ele tenha uma vida segura. E vamos estar sempre ao lado dele. Não podemos controlar o mundo, mas podemos dar todo o amor e a proteção que ele precisa.
James respirou fundo, o peso em seus ombros aliviado, ainda que só um pouco. Ele sorriu com gratidão para Lily, que se inclinou para dar-lhe um beijo na testa antes de se levantar.
— O jantar fica pronto em cinco minutos. — ela disse com um sorriso, passando os dedos de leve pela cabeça do bebê e deixando um beijo na testa do filho, o fazendo rir animadamente.
Assim que ela saiu da sala, James suspirou e olhou para o pequeno Harry, que o encarava com aqueles olhos brilhantes, completamente alheio às preocupações dos pais. Ele era tão pequeno, tão inocente, e James sentia que daria tudo para manter aquele brilho nos olhos do filho.
— Ei, campeão . — murmurou James, pegando Harry no colo e balançando-o suavemente. — Não se preocupe, ok? Eu vou estar aqui para você. Sempre.
Harry deu uma risadinha e James sorriu, sentindo-se um pouco mais confiante. Ele sabia que o futuro era incerto, mas ali, naquela sala iluminada pela luz da lua e pelo calor daquela pequena vida em seus braços, ele prometeu a si mesmo que faria tudo para proteger sua família.
— Eu prometo, Harry. — sussurrou, olhando nos olhos do filho. — Vamos ficar bem. Eu e sua mãe vamos lutar para garantir que você tenha o mundo que merece.
James colocou Harry contra o peito, cheirando aquele cheiro reconfortante da cabecinha do filho. Harry agarrou sua camisa, mordendo a gola enquanto deitava a cabeça contra seu ombro.
James brincou com Harry até ouvir a voz de Lily chamando-os para o jantar. Ele se levantou, ainda com Harry nos braços, e seguiu para a cozinha, onde Lily já tinha tudo pronto. Ela sorriu ao ver os dois entrarem e ajeitou a cadeirinha de Harry, para que o pequeno pudesse ficar ao lado dos pais.
James se sentou ao lado de Harry e começou a dar-lhe pequenas colheradas de purê. Harry, animado e curioso, tentava pegar a colher e explorar a comida, o que logo resultou em pequenas manchas de purê espalhadas pelo rosto e pela camisa do pai.
— Ele é bagunceiro igual ao pai. — comentou Lily, sorrindo.
— Eu chamo de espírito aventureiro, não de bagunceiro. — James respondeu rindo, enquanto limpava um pouco da comida que Harry tinha espalhado. Lily riu também e Harry, vendo a animação dos pais, soltou uma gargalhada também.
Quando terminaram o jantar, James pegou Harry no colo e o levou para o banheiro, onde preparou um banho morno para o filho enquanto Lily colocava a louça para lavar e descansava um pouco na sala. A cada risada que Harry soltava ao brincar com a água, James sentia uma felicidade genuína e despreocupada. Ele lavou o cabelinho desgrenhado de Harry com delicadeza, aproveitando aquele momento simples e tão especial, vendo os olhos do filho se fecharem enquanto ele aproveitava a sensação relaxante.
Assim que o banho terminou, James enrolou Harry em uma toalha macia e o carregou de volta para o quarto, onde o vestiu com um pijama confortável e aconchegante. Com Harry já quase adormecendo em seus braços, ele o levou até a sala e o aconchegou contra o peito com cuidado, dando um beijo suave na testa do filho.
Harry mordeu sua camisa, mania que ele sempre teve desde que nasceu, e, aos poucos, o bebê foi ficando sonolento nos braços do pai, os olhos piscando devagar. James o aconchegou melhor, deixando que o silêncio da noite envolvesse os dois, equanto caminhava pela sala, ninando Harry.
A casa estava quieta, apenas o som suave da respiração de Harry dormindo nos braços do pai. Lily e James o observavam em silêncio, lado a lado no sofá, como se tentassem gravar cada detalhe do filho em suas mentes. O bebê suspirou, e James sorriu, passando a mão no cabelo de Harry com ternura.
— Ele é a nossa vida, não é? — James sussurrou, olhando para Lily, os olhos cheios de amor e orgulho.
Lily assentiu, sorrindo com carinho. Ela deslizou os dedos pela bochecha de Harry e suspirou.
— Ele é a coisa mais preciosa que nós poderíamos ter.
James pegou a mão dela e entrelaçou seus dedos.
— E ele vai ter a vida que merece. Eu prometo, Lily. Ele vai crescer seguro. Vamos garantir isso.
Lily ia responder, mas então uma sensação pesada, um calafrio que subiu pela espinha de ambos, fez o coração dela disparar. O ar parecia pesado, avassalador, uma presença maligna. Seus olhos se encontraram, e James soube que ela sentira o mesmo.
— James? — sussurrou ela, tentando conter o tremor na voz.
Antes que James pudesse responder, ouviram o portão da frente abrir lentamente. James entregou Harry para Lily, pegando a sua varinha. Com rosto pálido, os olhos fixos na janela e com passos rápidos, ele foi até o corredor e olhou pela fresta da cortina. Lá fora, uma sombra escura se movia, um vulto que parecia absorver toda a luz ao seu redor.
Aquilo não era nenhum de seus amigos ou algum membro da Ordem. A sombra se aproximava cada vez mais, fazendo a ansiedade em James crescer. Ele saiu da porta, voltando para a sala onde Lily apertava Harry contra o peito de forma protetora.
— É Ele. — murmurou James, a voz quase inaudível, mas carregada de pavor. — Lily, escute, — disse James, se aproximando dela e segurando-a pelos ombros. — você precisa subir. Leve Harry e se esconda, não importa o que aconteça. Eu vou tentar ganhar tempo.
Ela o encarou, os olhos marejados. Sabia o que ele estava dizendo, o que isso significava.
— Não… James, não… — Lily sussurrou, tentando impedir as lágrimas de caírem. — Por favor , venha com a gente…
— Lily, não há tempo! — interrompeu James, os olhos brilhando com a dor da decisão que tomara. James se aproximou de Lily, segurando seu rosto com delicadeza, os olhos transbordando a dor da despedida iminente. O olhar dele encontrou o dela.
Ele inclinou-se e a beijou suavemente, um beijo carregado de tudo o que jamais poderia ser dito em palavras. Era uma promessa, um pedido de perdão e, acima de tudo, uma declaração silenciosa de amor eterno. Os lábios dele tocaram os dela com ternura e desespero, como se pudesse gravar cada segundo na memória.
Quando o beijo terminou, ele encostou sua testa na dela, fechando os olhos por um breve instante, absorvendo aquele último momento juntos.
— Eu te amo. Amo você e amo Harry mais do que qualquer coisa neste mundo. Confie em mim agora. Vou atrasá-lo. Vou fazer o que for preciso.
Lily assentiu, com lágrimas rolando pelo rosto, incapaz de falar, mas com um último sorriso trêmulo, repleto de coragem.
— Eu também te amo, James. — sussurrou, a voz embargada.
Eles foram interrompidos com o barulho da porta sendo derrubada. Harry acordou, chorando furiosamente nos braços da mãe, assustado com o barulho estrondoso. James se virou para a porta da sala, a varinha em mãos, o coração batendo forte.
Ali estava ele. Lord Voldemort, de pele pálida como mármore, olhos vermelhos e frios, um sorriso cruel surgindo em seus lábios apareceu na porta.
— James Potter. — disse Voldemort, com uma voz baixa e ameaçadora que parecia sussurrar dentro da mente.
James respirou fundo, apertando a varinha com mais força. Ele manteve a voz firme, mesmo que o coração estivesse acelerado.
— Vá para o andar de cima, Lily. — James disse, com a voz o mais firme possível, se recusando a demonstrar medo. — Você não vai chegar perto deles. — declarou, posicionando-se diante da esposa com determinação.
Voldemort soltou uma risada fria, quase zombeteira.
— Quanta bravura. — ele disse, dando um passo à frente. — Acham mesmo que isso irá me impedir?
James não respondeu. Ele sabia que o tempo era curto e que, talvez, essa fosse sua última chance. Ele lançou um feitiço rápido, mas Voldemort o bloqueou com um movimento quase preguiçoso da varinha, o sorriso não desaparecendo do rosto.
Harry chorou mais alto.
— Lily, vá! — James gritou. — Vá! Proteja o Harry!
O corpo de Lily vacilou por um momento, se recusando a deixar o marido ali, mas Harry precisa ser protegido. Ela correu, subindo as escadas o mais rápido possível.
James apertou a varinha com força, sentindo o suor escorrer pela nuca. O medo queimava em seu peito, mas ele se recusava a deixá-lo transparecer. Em vez disso, sua determinação o fazia se manter firme, o olhar fixo em Voldemort.
— Então, vamos ver se a bravura de um Potter é tão impressionante quanto dizem. — Voldemort sibilou, levantando sua varinha com um movimento elegante.
James não perdeu tempo. Ele lançou um Expelliarmus na direção de Voldemort, esperando que o feitiço o desarmasse, mas o Lord das Trevas desviou com um simples girar do pulso. Um jato de luz vermelha disparou de sua varinha em resposta, e James rolou para o lado, o feitiço atingindo uma prateleira e espalhando cacos de vidro e madeira por toda a sala.
— Protego ! — James conjurou rapidamente um escudo para bloquear o próximo feitiço de Voldemort, que ricocheteou e atingiu a parede, deixando uma marca queimada. A pressão do confronto mágico fazia o ar parecer denso, quase irrespirável.
Voldemort deu um passo à frente, os olhos brilhando com um prazer cruel. Ele ergueu a varinha novamente, conjurando uma série de feitiços em rápida sucessão. James desviava o melhor que podia, cada movimento impulsionado pelo desespero. Ele se jogou atrás de uma poltrona derrubada para se proteger de um feitiço que explodiu parte da parede.
— Você não pode ganhar tempo suficiente, Potter. — Voldemort zombou, sua voz cortante. — Sua resistência é inútil.
James saiu de sua cobertura, lançando um Estupefaça com toda a força que conseguiu reunir. O raio vermelho cortou o ar, mas Voldemort desviou com um movimento fluido. Antes que James pudesse reagir, um jato de luz azul atingiu o chão a poucos centímetros de seus pés, fazendo-o tropeçar.
Ele se levantou com dificuldade, respirando pesado. A adrenalina pulsava em suas veias, e sua mente estava cheia de pensamentos desesperados sobre Lily e Harry. Ele precisava continuar lutando, precisava dar-lhes mais tempo.
— Você nunca entenderá o que é amor. — James cuspiu, erguendo a varinha mais uma vez.
Voldemort sorriu, um sorriso sem qualquer calor ou humanidade.
— Ah, Potter, você fala como se essas emoções significassem algo. — ele ergueu sua varinha, o brilho verde mortal começando a surgir na ponta. — Temor. É isso o que importa. É isso o que mantém todos ao seu lado. O amor é temporário, qualquer um pode te trair. Mas quando eles o temem, ninguém nunca irá virar as costas para você.
James não teve tempo de reagir. Tudo pareceu acontecer em câmera lenta. Ele viu a luz verde, sentiu seu corpo se congelar. Um último pensamento passou por sua mente: Lily e Harry .
— Avada Kedavra ! — disse Voldemort, sua voz ressoando fria.
O feixe de luz verde o atingiu no peito, e, por um instante, James sentiu tudo se apagar aos poucos.
Seu corpo caiu no chão com um baque surdo. O grito de Lily ecoou pelas escadas, uma súplica desesperada que Voldemort apenas ignorou enquanto se dirigia para o andar de cima.
— O Harry não! O Harry não! Por favor, o Harry não! — ela implorava desesperadamente.
Harry chorava alto, tão forte a ponto de soluçar.
— Meu filho… Harry… Harry… — James tentava falar.
Mais gritos.
— Não… Não! Por favor, não! Harry! Lily! NÃO!
— NÃO! — seu corpo finalmente obedeceu. Ele se sentou rapidamente, a respiração acelerada, o coração quase pulando para fora do peito, as roupas grudando em sua pele suada.
James olhou em volta freneticamente, percebendo, mesmo sem seus óculos, que ele não estava mais em Godric's Hollow. Ele piscou várias vezes, confuso, enquanto tentava regular a respiração. Onde estava? Isso não era o que lembrava. Não havia a prateleira destruida, nem a parede queimada, e o pior; não havia Lily, não havia Harry.
— Lily! Lily! — ele chamou desesperado, olhando em volta. — LILY!
James tentou se levantar, mas suas pernas cederam, fazendo com que caísse no chão.
— Senhor Potter! — uma mulher vestida de enfermeira o ajudou a se levantar e se sentar na cama. James tentou se levantar outra vez.
— Onde eu estou!? Minha esposa e filho! Onde eles estão!? — ele perguntava desesperado, segurando os braços da mulher assustada a sua frente.
— James. — ele virou a cabeça para a porta ao som de seu nome. Lá, parado, estava Albus Dumbledore, lhe encarando com certa surpresa. — Que bom que acordou. Ninguém sabia dizer se você realmente sobreviveria ou não.
Dumbledore se aproximou.
— Professor! — James soltou a mulher — Onde estão Lily e Harry!? Eles estão bem!?
James sentiu seu coração apertar, a urgência tomando conta de seu corpo, seus olhos arregalados, buscando qualquer pista no rosto do diretor.
— Onde? — James repetiu, a voz embargada de desespero. — Onde está o meu filho!? Eu preciso vê-lo, preciso ver Lily!
Dumbledore olhou para ele com uma expressão triste, como se estivesse prestes a carregar o peso de uma verdade que ele sabia que James não suportaria ouvir.
— James… — começou o diretor, cuidadosamente. — Lily fez o sacrifício mais nobre que alguém poderia fazer. Ela deu a própria vida pela proteção do filho.
Foi como se o mundo de James tivesse parado. Seus braços caíram ao lado do corpo, e ele recuou, como se houvesse levado um golpe. Ele balançou a cabeça, tentando afastar o que acabara de ouvir.
— Não… — ele sussurrou, balançando a cabeça. — Não… Não, isso não é verdade… — ele riu, um riso de puro nervosismo, seu cérebro entrando em pani.
Não! Não a Lily!
Não sua amada esposa!
A ideia o consumia, a ideia de que Lily, sua amada esposa, tivesse partido. A dor o envolveu como uma onda que o engolia, sufocante e inevitável.
Dumbledore manteve-se firme, mas seus olhos carregavam uma profunda tristeza. Ele suspirou antes de continuar.
— Voldemort usou a maldição da morte. Quando você foi atingido, Lily teve apenas alguns momentos a mais com Harry antes que Voldemort a encontrasse. — Dumbledore fez uma pausa, como se as palavras lhe pesassem na língua. — Mas o sacrifício dela… ativou uma magia poderosa, algo que Voldemort não previu. Essa magia foi o que salvou Harry.
James mal conseguia processar o que estava ouvindo. Cada palavra soava como uma faca cravada em seu coração. Seu corpo começou a tremer, as mãos cobrindo o rosto.
— Não… Não! Se eu sobrevivi, por que ela não!? Como eu sobrevivi? Eu me lembro. Me lembro do feitiço e da luz verde. Como eu… — James começou, a voz trêmula, lutando para entender o que tinha acontecido com ele enquanto sua respiração acelerava.
Ele estava vivo.
Se ele estava vivo, Lily tinha que estar também!
Dumbledore balançou a cabeça levemente, o rosto carregando um pesar profundo.
— Nós não sabemos, James. Sua sobrevivência continua sendo um mistério. Quando chegamos ao local, Voldemort já estava morto. O corpo de Lily estava lá, mas você, de alguma forma, ainda respirava. Seu estado era crítico, e temíamos que não acordasse. Sua magia foi afetada de maneira que ainda não conseguimos compreender completamente.
James permaneceu em silêncio, as mãos tremendo visivelmente. As imagens do rosto de Voldemort e a luz verde cegante invadiram sua mente como um pesadelo revivido. Ele se lembrava claramente do súbito vazio que o envolveu, como se o próprio mundo tivesse sido arrancado debaixo de seus pés. E agora... de alguma forma, estava ali, respirando, enquanto Lily…
A realidade o atingiu com uma força brutal.
Lily estava morta.
A mulher que ele amava mais que tudo havia se sacrificado, e ele? Ele estava vivo.
Por quê?
O pensamento era insuportável. A dor explodiu dentro dele, rasgando sua alma. Suas mãos subiram automaticamente para cobrir o rosto, como se pudesse esconder o dilúvio de emoções. Mas as lágrimas vieram, quentes e implacáveis, escorrendo por entre seus dedos, apesar de toda sua tentativa de resistir.
— Harry… E o Harry? — James conseguiu perguntar, sua voz embargada pelo choro que ele falhou em conter. — Você disse que Lily deu a própria vida pela dele. Onde ele está? Eu preciso vê-lo… Por favor… — ele implorou, a urgência em seus olhos se misturando com um desespero incontrolável.
Dumbledore assentiu lentamente, entendendo a dor de James.
— Ele está em segurança, James.
— Onde? — James perguntou com urgência.
— Em um lugar seguro.
— ONDE? — ele gritou, já sem paciência.
Por Merlin, tudo o que ele queria era ver o seu filho. Ele só queria ter a única coisa que lhe sobrou nos braços.
— Onde o meu filho está!?
— James, se acalme.
— ME ACALMAR!? — James explodiu, seus olhos faiscando com raiva e dor. — O amor da minha vida está morto! Meu filho está longe de mim! — sua voz se quebrou, mas ele continuou, seu corpo inteiro tremendo com a intensidade das emoções. — Tudo o que eu quero é que você me leve até o Harry! Pelo amor de Merlin! — ele implorou — Tudo o que eu quero é ver o meu filho!
Dumbledore observou James com uma expressão que misturava paciência e tristeza. Ele suspirou, pesando as palavras com cuidado, enquanto via o desespero tomar conta de cada fibra do homem à sua frente.
— James, por favor. — Dumbledore disse, com a voz baixa, tentando ser o mais calmo possível. — Eu entendo a sua dor. Ninguém deveria passar por isso, e eu juro que fizemos tudo o que era possível para proteger Harry.
Mas James não queria ouvir. Sua raiva, sua dor e seu medo haviam atingido um ponto em que não havia espaço para razão. Ele se levantou de repente, seu corpo tremendo de tensão.
— NÃO! — James gritou, avançando em direção a Dumbledore. — Você não entende! Você nunca perdeu o amor da sua vida, nunca perdeu um filho! — ele estava completamente fora de controle, lágrimas escorrendo por seu rosto. — Me diga onde ele está! Eu preciso ver Harry! Por favor! — ele implorava, mas sua voz era quase um rugido de dor.
Dumbledore permaneceu firme, embora seus olhos refletissem a gravidade do que estava prestes a fazer. Ele sabia que James estava em um estado mental frágil, e a informação sobre o paradeiro de Harry, nas condições atuais, poderia ser catastrófica.
— James… — Dumbledore começou suavemente, levantando sua varinha com um movimento quase imperceptível. — Entenda, ele está seguro…
James mal teve tempo de reagir antes de sentir um calor estranho envolver seu corpo. Seus olhos arregalados encontraram os de Dumbledore por um segundo.
— Não... — ele tentou protestar, sua voz vacilante.
Mas era tarde demais. Um feitiço suave o atingiu, e suas pálpebras pesaram imediatamente. Sua visão foi ficando cada vez mais turva e escura, e ele afundou de volta na cama, com a respiração agora calma e controlada.
— Mantenha-o sedado por mais algum tempo. — a voz de Dumbledore ecoou em sua mente escura. — Quando ele acordar, talvez esteja mais disposto a ouvir. Mas até lá, precisamos manter as coisas sob controle.
E então sua mente o jogou para longe.
Seus olhos encararam o teto branco do quarto, a visão turva tanto pela falta de seus óculos quanto pela tontura que o envolvia. O quarto estava em silêncio, exceto pelo som de sua respiração irregular. James piscou algumas vezes, tentando clarear a mente, mas tudo parecia enevoado. Seus olhos estavam desfocados, a escuridão de seu sono forçado ainda pairava em sua mente.
Ele tentou se mover, mas seus músculos estavam rígidos, pesados, como se não tivessem sido usados em dias. Cada movimento era uma luta, e um gemido escapou de seus lábios enquanto tentava se erguer. Suas mãos trêmulas tatearam o colchão, desesperadas por algum ponto de referência. Ele finalmente encontrou o metal frio e familiar, colocando os óculos no rosto com esforço, como se realizar aquela ação simples exigisse uma força que ele não tinha mais.
O mundo ao redor lentamente começou a ganhar forma. James olhou em volta, o coração batendo mais rápido, uma sensação crescente de desorientação o dominando. Aquilo não era Godric’s Hollow. As paredes ao seu redor eram brancas, a cama era desconfortável e havia um forte cheiro de poções. Aquilo era um hospital.
Estava tudo bem. Ele estava bem. Não havia sinais de destruição, de uma batalha travada ou de Voldemort.
Uma súbita onda de pânico percorreu seu corpo.
— Harry… Harry! — ele se sentou rapidamente, ignorando a dor nos músculos enfraquecidos. O medo o atingiu em cheio. Ele precisava saber onde Harry estava. Ele precisava encontrar seu filho. — Harry… — a voz dele saiu baixa, quase um sussurro, enquanto olhava ao redor como se ele pudesse aparecer a qualquer momento.
Sua mente ainda estava nublada, mas as memórias fragmentadas começaram a se juntar. Ele se lembrava de Voldemort. Do brilho verde. Dos gritos. O som dos gritos de Lily e do choro apavorado de Harry ecoavam em sua mente, como se ainda estivessem presentes.
James tentou se levantar da cama, mas suas pernas falharam de imediato, e ele caiu de volta, sentindo o frio do chão sob seu corpo. Ele lutou para ficar de pé, até que finalmente conseguiu se apoiar na cama, ofegante. Ele precisava de respostas. Precisava achar Harry.
Com esforço, ele conseguiu se apoiar nas pernas e cambalear até o banheiro do quarto, James abriu a porta e se apoiou na pia. Ele sentiu o suor frio escorrendo por sua testa, enquanto, com as mãos trêmulas, ele ligava a torneira, jogando um punhado de água no rosto.
Quando levantou a cabeça, seus olhos encontraram o espelho. A figura que o encarava parecia um estranho. Seus cabelos estavam enormes, desgrenhados, mais longos do que ele jamais havia deixado. A barba crescida cobria seu rosto de uma maneira que ele não reconhecia. Ele parecia anos mais velho, exausto, como se tivesse passado meses preso em um pesadelo.
— Quanto tempo eu… — ele murmurou para si mesmo, a mente tentando calcular quanto tempo ele esteve inconsciente.
Seu coração batia forte no peito, uma mistura de medo e raiva crescendo dentro dele. Ele não podia continuar ali, sem respostas, sem saber o que aconteceu com Harry. James respirou fundo e, determinado, voltou ao quarto. Pegou as roupas que encontrou dobradas em uma cadeira e começou a se trocar rapidamente. Ele sabia exatamente para onde iria: para a casa de Remus e Sirius. Ele e Lily sempre haviam confiado em Remus e Sirius para cuidarem de Harry, os nomearam como seus padrinhos.
Dumbledore disse que Harry estava em um lugar seguro. Harry estaria seguro com Sirius e Remus, então o filho está lá.
James terminou de se vestir, pegou sua varinha que havia sido deixada embaixo das roupas e olhou para o espelho, lançando um encanto rápido para fazer a barba e molhando as mãos na torneira e passando os dedos por entre os cabelos compridos, os colocando para trás, aliviado pelas mechas grandes pararem de atrapalhar sua visão. Ele se perguntava como Sirius suportava aquele cabelo comprido. Pegou a varinha e a escondeu bem no bolso interno da jaqueta e saiu silenciosamente do quarto, olhando para todos os lados, tendo certeza que não havia ninguém por perto.
