Chapter Text
O sol estava nascendo quando Hyunjin acordou. A luz suave do amanhecer era filtrada pela abertura na lona da barraca, que, eventualmente, esqueceram de fechar. Felix ainda dormia profundamente, o braço envolvido na sua cintura, a respiração lenta contra seu pescoço.
Hyunjin se virou com cuidado nos braços dele, admirando o rosto sardento — cheio de estrelas — que ele tanto amava. Os cílios longos estavam emaranhados, os lábios entreabertos… Ele estava lindo.
Não conseguiu evitar o sorriso largo, tampouco o ímpeto de beijar a bochecha, os olhos e a testa de Felix. Depois, desceu os beijos pela ponta do nariz e pelo queixo, terminando com um estalo no canto da boca.
Felix começou a se mexer, um sorriso preguiçoso aparecendo no rosto sonolento, ainda com os olhos fechados.
— Hm… — ele murmurou, despertando. — Bom dia, moranguinho.
— Bom dia — Hyunjin sussurrou, abraçando-o de frente.
— Que horas são? Já tá na hora de ir pro ônibus?
— Não — murmurou de volta. — Tá amanhecendo ainda — continuou distribuindo beijinhos pelo rosto de Felix. — Vem comigo ver o sol na beira do mar?
Felix sorriu, finalmente acordando de verdade.
— Você quer ir agora?
— Agora — Hyunjin confirmou, beijando o pescoço de Felix. — Por favor? Eu gosto muito de ver o sol nascer.
— Tá bom, tá bom — Felix riu, tentando se livrar da chuva de beijos. — Mas vamos levar um cobertor. Tá frio.
Eles se levantaram, e Felix pegou uma das cobertas, balançando-a para tirar qualquer resquício de areia. Descalços, os dois saíram da barraca, caminhando pela areia fresca da manhã.
O acampamento estava silencioso, todos ainda dormindo. Hyunjin apontou para um lugar na beira da água, onde as ondas vinham e voltavam. Felix esticou a coberta atrás das costas e chamou Hyunjin. Os dois sentaram na areia, e Hyunjin se acomodou entre as pernas de Felix, de frente para o mar, com as costas apoiadas no peito dele. Felix os envolveu com a coberta e abraçou Hyunjin por trás.
— Olha só — Hyunjin apontou para o horizonte, onde o sol começava a se ergueu do mar, pintando o céu de laranja e rosa. — Ele tá acordando.
— Acho que ele tá mais acordado do que eu — Felix riu, esfregando o nariz nos cabelos de Hyunjin.
— Besta — brincou, divertido. — É lindo.
— É meditativo, não é? — Felix disse. — As ondas indo e vindo…
— Igual seu coração batendo. Eu consegui ouvir a noite toda.
— Você dormiu igual uma pedra, moranguinho!
— Antes de dormir, então — Hyunjin riu. — Era reconfumante.
— Reconfor… — Felix parou. Ele olhou para o sol, depois, para o perfil de Hyunjin iluminado por ele. Sorriu de lado. Deus, como ele o amava… — Era mesmo reconfumante.
Eles ficaram em silêncio, olhando as ondas e sentindo a brisa. Felix brincou com os dedos de Hyunjin, entrelaçando e soltando, enquanto Hyunjin, de vez em quando, erguia o resto para pedir um beijo.
— Eu podia ficar assim pra sempre — Felix suspirou.
— Eu também… Só nós dois.
— E o Peixonauta.
— É — Hyunjin confirmou. — Ele aprova esse relacionamento, inclusive.
O sol continuou subindo, transformando o mar em um espelho dourado. Alguns alunos começaram a acordar, passeando pela beira do mar. Não se importaram com os olhares curiosos.
Permaneceram em sua pequena bolha, aquecidos sob a coberta, trocando carícias suaves e declarações baixas, assistindo o mundo despertar ao redor deles.
🚌
Às nove da manhã, todos os alunos já estavam dentro dos ônibus, prontos para voltar.
Quando entrou no primeiro ônibus, Felix resistiu ao impulso de sentar ao lado de Hyunjin, que estava com um travesseiro de pescoço, encostado em uma janelinha, enquanto mexia no celular. Haviam combinado de que não voltariam juntos, cada um sentando ao lado dos seus respectivos melhores amigos. Precisavam, como Hyunjin disse, “adubar o terreno” para a notícia de que tinham voltado, mesmo que todos tivessem visto Hyunjin para cima e para baixo com a jaqueta de Felix e soubessem que eles tinham dormido na mesma barraca.
Então, Felix passou pelo corredor e lançou uma piscadinha charmosa quando Hyunjin olhou para ele. Céus, queria tanto apertá-lo em seus braços de novo, matar a saudade que o consumiu por semanas… Mas ele teria a chance, sem prazo de validade desta vez.
Assim que chegou às últimas poltronas, com a mochila nas costas, franziu o cenho ao ver Jeongin sentado ao lado daquele mesmo ômega loiro. O alfa, que ria ao lado dele, arregalou os olhos quando viu Felix parado ao lado do banco.
— Lix, oi! E aí? — Jeongin disse, pigarreando e remexendo-se em seu próprio assento. — Esse… Esse é o…
— Theo — disse o garoto, sorrindo largo para o outro ômega, ainda de pé no corredor. — Você é o famoso Felix, né?
— Oi, Theo! Sou, sim — Felix devolveu o sorriso.
Theo se levantou do assento do corredor, como se não estivesse mesmo pensando em sentar ali durante a viagem. Ele parou na frente de Felix, alto e bonito.
— É bom te conhecer — disse Theo. — O Innie fala muito de você.
— O Innie fala? — Felix prendeu uma risada, vendo Jeongin prensar os olhos, como se estivesse sendo consumido pela vergonha. — Que bom, Theo. A gente pode marcar de sair depois, o que acha? Você, o Ayen, meu namorado e eu.
— O Hyunjin? — Theo arqueou as sobrancelhas, um sorriso de canto. — Claro! Todo mundo fala que ele é doidinho, mas eu acho ele engraçado.
— Ele é, sim — Felix assentiu.
— A gente marca, então — Theo disse. — Vou sentar com meu amigo, tá?
Para a surpresa de Felix, Theo se curvou na direção de Jeongin e deixou um selo rápido nos lábios do alfa. Jeongin pareceu um pimentão de tanta vergonha, sendo pego no flagra por Felix. Quando Theo saiu pelo corredor, Felix partiu os lábios em uma risada muda, como se não acreditasse no que seus olhos estavam vendo.
— Eu ia te falar, tá bom?! — Jeongin disse assim que Felix sentou ao lado dele.
— Ah, é? Quando? — perguntou, risonho, deixando a mochila no colo.
— Quando fosse a hora certa.
— Hora certa?
— É, quando tiver, sabe, oficial…
— E ainda não tá?
— Mais ou menos — Jeongin coçou a nuca, desconcertado.
Felix mexeu a mochila no colo, ainda com aquele sorriso maroto nos lábios. O ônibus começou a se mover, e ele podia sentir o cheiro salgado do mar ainda grudado em suas roupas, como uma lembrança dos últimos dias.
— Mas me conta, vai — Felix olhou novamente para Jeongin. — Como vocês se conheceram? Eu vi que vocês foram juntos pro acampamento.
Jeongin respirou fundo, olhando pela janela, como se as palmeiras que passavam fossem a coisa mais interessante do mundo naquele momento.
— Ele me seguiu no insta e começamos a conversar — disse, dando de ombros. — No começo, eu não dei muita bola, mas ele é muito legal e bonito.
— Ele é mesmo um gato.
— E… Ele me perguntou se eu estava interessado em alguém.
Jeongin empurrou a língua na bochecha, aquele assunto ainda parecendo um tópico delicado.
— E o que você disse? — Felix indagou.
— Que sim, mas que era… complicado.
Felix sentiu uma pontada no peito, conhecendo muito bem aquele tom de voz de Jeongin. Quantas vezes, ao longo dos anos, ele havia percebido os olhares do melhor amigo, os sorrisos, as desculpas esfarrapadas para ficarem sozinhos, as indiretas? Quantas vezes fingiu não notar tudo isso simplesmente para não magoá-lo?
— Ayen… — Felix começou, baixando a voz. — Você sabe que…
— Deixa eu terminar — Jeongin interrompeu, finalmente olhando para ele. — Eu contei pra ele sobre… você. Sobre como eu me sentia em relação a você.
O estômago de Felix se revirou. Eles nunca tinham falado tão abertamente sobre isso, sempre dançando ao redor do assunto, como se dizer com todas as letras pudesse machucar os dois.
— Ele entendeu — continuou, um sorriso pequeno aparecendo nos lábios. — Disse que sabia como era gostar de alguém assim. — Quando Jeongin percebeu que Felix estava abrindo os lábios para falar, ele o cortou. — Não precisa dizer nada, tá bem? — balançou a cabeça, o sorriso ganhando forma. — Eu tô bem agora, Lix, de verdade. Levou um tempo, mas eu entendi que você sempre foi meu melhor amigo e sempre vai ser. Isso não é pouca coisa.
— Você é muito importante pra mim, Ayen. Eu não quero que isso mude nunca.
— Não vai mudar — Jeongin riu. — E eu… Eu gosto dele e realmente quero tentar.
Felix respirou aliviado. Dali, podia ver a nuca de Hyunjin, que ainda estava mexendo no celular e com o travesseiro apoiado na janela. Dentro de algumas horas, estariam em casa, e finalmente poderiam ficar juntos o tempo que quisessem.
— Então… — Felix voltou sua atenção para Jeongin. — Conta mais sobre o Theo. Ele parece ser legal.
— Ele é — Jeongin corou levemente. — Ele foi transferido de outro campus há alguns meses e faz Artes Plásticas, gosta de fotografia. Inclusive, foi ele quem tirou a maioria das fotos com a câmera, e ele cozinha.
— Uau, cozinha?! Então ele é um ótimo pretendente pra você, que não sabe nem fritar um ovo.
— Cala a boca — Jeongin riu, empurrando Felix de leve. — Eu acho que vai dar certo.
— Eu espero muito que sim, Ayen. Você merece alguém tão legal quanto você.
— É — respirou fundo, encostando a nuca no assento. — E você? Como estão as coisas com o Hwang?
Felix sorriu, lembrando-se da noite anterior, da forma como Hyunjin se enroscou nele durante o sono, murmurando seu nome algumas vezes. Lembrou de verem o sol nascer juntos, o calor dos corpos se misturando, da paixão quase palpável que flutuava entre eles.
— Estão… bem, eu acho — sorriu, olhando para o colo. — Finalmente conseguimos conversar de verdade sobre tudo.
— E agora? Você já voltou a chamar ele de namorado.
— Sim, mas acho que foi a força do hábito. Nós vamos devagar. Vamos fazer tudo certo dessa vez. Quero esquecer tudo de ruim que aconteceu entre a gente, todas as brigas, as mágoas… Quero que seja diferente.
Jeongin ficou quieto por um momento, parecendo escolher as palavras com cuidado.
— Lix, você sabe que eu e o Hyunjin nunca nos demos bem…
— Eu sei — Felix suspirou. — Vocês dois são como água e óleo.
— Mas — Jeongin hesitou, olhando as próprias mãos — eu vi como você ficou quando vocês terminaram. Vi você chorando escondido, tentando fingir que estava tudo bem quando, na verdade, você estava um lixo. Eu odiei ele por isso mais do que nunca.
Felix sentiu o peito arder com as lembranças.
— Eu o odiei por ter tudo que eu sempre quis e ter desperdiçado assim… seu amor — Jeongin fechou os olhos, balançando a cabeça. — Mas eu também vi seu rosto hoje de manhã, quando voltou do acampamento. Você estava… brilhando, Lix. Tipo, literalmente radiante. Fazia tempo que eu não te via assim.
Felix sorriu involuntariamente, sabendo de todos os efeitos que Hwang Hyunjin causava nele.
— Então… — Jeongin respirou fundo. — Eu vou me esforçar. Vou tentar gostar dele. Ou, pelo menos, tentar tolerar ele sem fazer cara feia.
Os olhos do ômega se arregalaram com o que tinha ouvido.
— Sério?
— Sério — assentiu, sincero. — Se ele te faz feliz e se ele realmente mudou, eu posso tentar.
O ônibus entrou na estrada principal, deixando a paisagem litorânea para trás. Felix olhou mais uma vez na direção de Hyunjin, que, agora, estava conversando com Jisung.
— Obrigado, Ayen — disse Felix. — Isso significa muito pra mim.
— Só não me peça pra ser amigo dele, porque aí você já tá pedindo demais — Jeongin riu.
— Combinado — Felix gargalhou baixinho. — Mas quem sabe vocês não se dão bem quando marcarmos de sair os quatro juntos? Você e o Theo, ele e eu?
— Hm, não sei, não.
— Ah, vamos lá! Podemos até fazer um mega encontro, que tal? Podemos chamar o Changbin e o Seungmin e o Minho e o Jisung.
— Quê? Nem fodendo que eu vou sair com aquele sociopata do Minho!
— Você ainda pensa isso dele?
— Claro que penso! Aquele cara é estranho. Ele fala enquanto dorme, sabia? Ficou resmungando coisas do tipo “amor, não esquece de tomar anticoncepcional”. Ele tem tanto medo de engravidar o Jisung assim? Que use camisinha, então!
— Você só tem medo dele, admite logo.
— M-M-Medo? Eu não tenho medo dele! Só acho ele mega estranho.
— Ayen…
E então, Jeongin ficou cerca de dez minutos tentando convencer Felix de que o que sentia por Minho não era medo. Felix riu, fingindo acreditar. Depois, os dois pegaram no sono, com o coração tranquilo e uma lufada longa de alívio.
Estava tudo bem.
🌸
Hyunjin estava com as mãos nos olhos de Felix, enquanto o guiava pelo corredor da JJAM.
Quando chegaram da viagem no dia anterior, Felix tentou marcar um encontro, nem que fosse para eles verem filmes e ficarem agarrados enquanto amenizavam um pouco a saudade. No entanto, Hyunjin disse que precisava resolver coisas, com aquele olhar desconfiado, como uma criança arteira que está planejando alguma coisa.
Então, Felix ficou em casa, tentando ler enquanto pensava que coisas seriam essas. Ele só esperava que não acabasse com Hyunjin em uma delegacia, preso por algum motivo, depois de tanto mistério.
No dia seguinte, Hyunjin o ligou por chamada de vídeo e, enquanto escovava os cabelos, disse que Felix deveria encontrá-lo na Stray, às 20h, e que fosse bem arrumado. Felix rebateu, dizendo que ele sempre estava bem arrumado, e que estaria lá às 19h59, sem falta.
Assim que Felix chegou à fraternidade de Hyunjin, teve tempo somente de cumprimentar Jisung e Minho, tendo seu braço puxado escada acima.
Hyunjin estava nervoso, andando rápido e falando sem parar.
— E você viu todas as conchas que eu coletivei na praia, não é? Eu acho que vou juntar todas em uma garrafa e dar de presente pra minha mãe alfa, porque ela gosta muito de praia, mas, como ela trabalha muito, não tem tempo pra ir. Você não acha uma boa ideia? — Enquanto dizia tudo, quase sem puxar o ar para dentro dos pulmões, ele guiava Felix até o quarto, ainda tapando os olhos dele.
— Eu acho ótimo, mas você não vai me dizer por que você tá tapando meus olhos?
— É uma surpresa, sabichudo — Hyunjin disse, finalmente parando. — Não pode olhar até eu dizer que pode, entendeu?
— Tá, eu entendi.
— Fecha bem os olhos. Não vale olhar.
— Não tô olhando, juro.
Hyunjin tirou as mãos dos olhos de Felix apenas para abrir a porta do quarto, enquanto ele continuava com as pálpebras cerradas.
Hyunjin respirou fundo, arrumando, nervoso, a própria blusa curta pela décima vez. Suas mãos tremiam levemente, enquanto verificava se tudo estava no lugar certo.
Assim como Felix fez naquela noite — aquela em que Hyunjin decidiu estragar tudo —, ele espalhou velas vermelhas pelo quarto, criando uma luz baixa, dourada e suave. No dia anterior, bateu perna no shopping a tarde inteira com Jisung e Minho em busca de um abajur que tinha visto no pinterest uma vez, que projetava estrelas dançantes no teto e nas paredes. Ele poderia ter comprado na internet, com certeza teria sido mais barato, mas não tinha tempo a perder.
Hyunjin não queria perder mais um segundo sequer longe de Felix.
— Pode abrir os olhos agora — Hyunjin murmurou, os dois já dentro do quarto.
Felix abriu os olhos lentamente, piscando algumas vezes para que seus olhos se acostumassem com a luz suave. Por um momento, ficou em silêncio, a boca partida enquanto tentava entender a cena. O quarto de Hyunjin havia se transformado em algo saído diretamente de um conto de fadas. As velas tremulavam, criando algumas sombras, e havia estrelas no teto projetadas pelo abajur, que faziam Felix se sentir como se estivesse flutuando no espaço.
— Moranguinho… — Felix sussurrou, os olhos passando por cada detalhe. — O que… o que é tudo isso? Você fez isso sozinho?
Hyunjin engoliu em seco, as palavras que tinha ensaiado na frente do espelho durante horas, de repente, fugindo da sua mente. Suas mãos suaram e ele as esfregou no tecido da saia jeans.
Certo. Ele sabia o que dizer. Não falaria nada errado naquela, as palavras não sairiam invertidas, ele não trocaria a ordem das frases. Ele conseguiria fazer aquilo porque era inteligente.
— Eu precisava fazer algo especial pra você — começou, a voz tremendo. — Eu sei que isso não apaga nada do que eu fiz, mas… Depois do que aconteceu, de como eu agi… Felix, você não merecia nada daquilo. Você sempre foi tão bom pra mim, e eu fui um idiota completo.
Felix se virou completamente, encarando-o. Os olhos de Hyunjin brilhavam com a luz das velas, e as sardas de Felix, Hyunjin observou, pareciam pequenas constelações no rosto. Os corações, em sincronia, falharam uma batida.
— Então você… — Felix tentou dizer, mas foi interrompido.
— Espera, por favor, eu não posso me distrair — Hyunjin interrompeu, tirando do bolso da saia, com as mãos trêmulas, uma pequena caixinha de veludo.
Felix engoliu em seco, o pescoço e todo o resto do corpo arrepiados.
— Eu comprei isso pra você — disse Hyunjin, abrindo a caixinha e revelando o delicado colar prateado, com um pingente pequeno, tão lindo como o de morango que carregava no pescoço, no formato de uma estrela. — Felix, eu te amo. Eu te amo de um jeito que eu nem sei explicar, porque, antes de você, eu não sabia o que era amor. Eu não entendo muito das coisas do mundo, e os significados das palavras às vezes somem da minha cabeça, como se meu HD estivesse quase sempre sem espaço e eu precisasse deletar as coisas pra caber mais. Eu… Eu não sei falar palavras bonitas como você sabe, mas tudo que eu falar agora vai ser sincero.
Felix prendeu a respiração.
— Eu sinto muito por tudo que eu fiz, mesmo já tendo dito isso várias vezes — Hyunjin abaixou os olhos, ainda segurando o colar. — Eu não sabia fazer as coisas de outro jeito, e eu sei que isso não justifica nada — negou com a cabeça, respirando fundo —, mas ninguém nunca quis olhar pra dentro de mim, além do que eu sou por fora, e realmente me enxergar. Felix, você me enxergou de verdade. Você… Você é tudo que eu sempre quis. Você é doce, engraçado, inteligente, cativante, talentoso e tantas outras coisas… Eu queria engolir um dicionário, aprender todas as palavras da nossa língua e os aplicativos, digo — respirou fundo, fechando os olhos para lembrar —, adjetivos certos pra te descrever, mas eu não consigo lembrar de mais nenhum agora.
Felix riu, os olhos cheios de lágrimas.
— Então tudo que eu posso dizer é… Eu te amo. De novo. Eu te amo. De novo. Eu te amo. Esse colar tem esse pingente por causa das suas sardinhas, porque elas me lembram estrelas, e eu acho que você é minha… A minha…
Felix percebeu que ele travou, mordendo o lábio enquanto pensava. Sorriu, chegando mais perto dele.
— Cons… — Hyunjin arriscou dizer, esperando a validação de Felix.
— Você sabe qual é a palavra, moranguinho. Pode falar.
— Constelação? — Quando viu o sorriso de Felix, ele também sorriu, feliz. — Você é minha constelação inteira.
As lágrimas começaram a rolar pelo rosto de Felix. Ele levou uma mão à boca, emocionado.
— Quer ser meu namorado de verdade? — As palavras de Hyunjin saíram de uma vez, como se ele tivesse medo de que elas fugissem se demorasse mais. — Eu prometo deixar aquele Hyunjin cabeçudo idiota pra trás. Ele não vai mais existir e eu vou me esforçar muito, muito mesmo, pra nunca te magoar de novo. Eu quero ser seu namorado, cuidar de você como você cuida de mim. Quero acordar pensando em você e dormir e sonhar com seus olhos. Eu quero que todo mundo saiba, de verdade dessa vez, que você é meu e eu sou seu, Felix. Não quero mais que nos vejam como inimigos, rivais ou qualquer outra droga de palavra. Quero que saibam que você é o meu amor e eu sou o seu…
— O meu moranguinho — Felix completou, para que, finalmente, Hyunjin conseguisse respirar. — Você quer que eles saibam que você é o meu moranguinho, não é?
— É… — Hyunjin suspirou, a voz trêmula.
O silêncio que se seguiu pareceu durar horas ao invés de poucos segundos. Felix permaneceu parado, as lágrimas fazendo seus olhos arderem, mas era de pura felicidade. Ele olhou para o colar na mão de Hyunjin, que aguardava sua resposta com o coração batendo tão forte que teve certeza de que o som estava ecoando pelo quarto inteiro.
Mesmo que Hyunjin soubesse do amor de Felix, no fundo, ele ainda tinha tanto medo, que estava quase gritando para que ele o respondesse de uma vez.
— Que porra de garoto maluco — Felix finalmente disse, um sorriso se misturando às lágrimas. — Completamente. Você é completamente maluco, Hwang Hyunjin.
Hyunjin não sabia se sorria ou se chorava. Então, ele mexeu os lábios, quase um tremular inseguro de um sorriso torto.
— Eu te amo — Felix afirmou, por fim. — Eu te amo demais, e se você é maluco, eu sou mais ainda por você — completou, dando um passo em direção a Hyunjin. — É claro que eu quero ser seu namorado.
O alívio que tomou conta de Hyunjin foi tão intenso que suas pernas quase falharam. Ele se viu caindo no chão, despencando aos pés de Felix, porque estava tão, tão feliz. Hyunjin sorriu de verdade agora, um riso que misturava alívio, felicidade e nervosismo.
— Sério?
— Sério — Felix afirmou, pegando o colar das mãos do, agora, namorado. — Você vai me ajudar a colocar?
Com dedos ainda trêmulos, Hyunjin pegou o colar. Felix virou de costas para ele e sentiu os dedos longos roçarem sua nuca enquanto ele prendia o fecho prateado. Felix estremeceu com o toque, a saudade irradiando por seu corpo.
— Fica perfeito em você — Hyunjin murmurou, suas mãos descansando nos ombros de Felix.
Felix se virou nos braços dele, o pingente de estrela brilhando bem no meio das clavículas marcadas.
— É de verdade dessa vez — Felix disse, rodeando a cintura com as mãos pequenas. — E pra sempre.
— Pra sempre — Hyunjin murmurou. — Lix… Eu tô com tanta saudade — esfregou o nariz no rosto do outro ômega, de repente, sendo invadido por aquela agonia dentro do peito, que só passava quando sentia o corpo de Felix junto ao dele.
— Eu também, moranguinho — Felix respondeu, puxando-o para mais perto. — Esse quarto tá tão lindo… Eu quero ficar aqui com você, sem me importar com mais nada agora.
Hyunjin sorriu, e foi um sorriso doce e genuíno. Ele estava feliz agora, a apreensão e o medo dando lugar ao conforto que ele só encontrava nos braços de Felix.
O beijo veio com gosto de lágrimas, mas também havia mel e pêssego nas pontas das línguas. O contato foi crescendo, tomando forma, como se eles fossem, pouco a pouco, virando uma coisa só. Enquanto os lábios se moviam, os pingentes — o morango e a estrela — também se tocavam. Gradualmente, eles viraram uma mistura de saliva, mãos e desesperos, e quando estavam na cama, pele com pele, as roupas emaranhadas pelo colchão, eles souberam que não havia lugar nenhum para ir além do corpo um do outro.
Felix ficou por cima de Hyunjin, cada perna de um lado do corpo, descendo beijos pelo pescoço longo e pelo peitoral estreito. Arrancou um gemido manhoso dele quando chupou seus mamilos, rodeando a língua pelos bicos sensíveis. Sua lubrificação escorria, molhando-o inteiro, e Hyunjin apertava sua bunda, raspando os dedos muito perto da sua abertura.
— Faz amor comigo. — Foi Felix quem disse dessa vez. — Porque agora eu sei que você me ama de verdade.
Hyunjin, ofegante, assentiu, os cabelos roçando no travesseiro. Ele apertou a cintura de Felix em cima do corpo e, em um impulso, ergueu o tronco para ficar sentado, mantendo-o no colo.
— Lix — Hyunjin chamou, sentindo a fricção que Felix mantinha em seu pau, movendo os quadris para frente e para trás. — Eu posso…
— Pode — Felix assentiu, o desejo quase escorrendo pela voz. — Pode, meu amor, por favor…
Hyunjin engoliu em seco. Aquilo ainda era novo para ele. Desde que transaram na sala da fraternidade de Felix, sonolentos e ainda descobrindo o que era aquele fogo que subia entre eles, Hyunjin não tinha estado dentro dele de novo. Foi uma sensação única, tão diferente e, ao mesmo tempo, tão boa… Ele sentiu todo seu corpo tremer, os olhos encherem de lágrimas e um arrepio constante alojado na nuca. Naquela noite, quando terminaram, Hyunjin achou que poderia, literalmente, explodir de tanto prazer.
Então, com cuidado, ele deixou Felix no colchão, ficando por cima dele, entre as pernas esguias.
Cara a cara, ele encarou os olhos expressivos. As mãos de Felix foram até os cabelos de Hyunjin, tirando-os do seu rosto, como se quisesse ver qualquer microexpressão que surgisse. Os olhos de Felix estavam brilhando, ansiosos e excitados, e a boca dele, grossa, macia, molhada e cheirosa, estava partida, soltando lufadas curtas de ar.
— O que você quer? — Felix perguntou baixinho, ainda movendo os quadris.
Quando ele fazia isso, a glande de Hyunjin tocava-o bem no meio, escorregadia e quente.
— Eu quero… — mordeu os lábios, olhando para o contato dos seus corpos juntos. — Eu quero foder você.
— Porra — Felix chiou, apertando os cabelos castanho entre os dedos. — Então me fode — incentivou, escorrendo o corpo mais para baixo.
— Naquela noite você ficou em cima — disse Hyunjin —, mas agora, eu… eu não…
— Não se preocupe, moranguinho — Felix o acalmou, sorrindo tão doce e tão puro, que Hyunjin achou que estivesse vendo um anjo. — Você é perfeito.
Então, Hyunjin o beijou com todo o amor que ainda não tinha conseguido dizer em palavras. A língua deslizou entre os dentes de Felix, lenta e quente, e sentiu o corpo dele tremer e se derreter debaixo do seu. As respirações se misturavam no beijo, as mãos tocando cada rastro de pele que conseguiam alcançar.
Hyunjin se afastou apenas o suficiente para o olhá-lo de novo. A palma da mão direita escorreu pela lateral da coxa de Felix, abrindo mais as pernas macias dele. Com a outra mão, ele segurou no próprio pau, arfando com o contato inicial, e o posicionou na abertura úmida, quente e latejante.
— É assim? — perguntou, a voz trêmula de desejo e de medo de não estar fazendo direito.
— É, é sim — Felix assentiu. — Porra, se você não entrar logo, eu vou gozar só de sentir você tão perto assim.
Hyunjin gemeu baixo, a voz rouca de Felix arrepiando seus poros. Ele empurrou devagar, sentindo a pressão deliciosa envolvendo sua glande. Felix fechou os olhos com força, mordendo os lábios e arqueando as costas no colchão. Deixou um gemido preso na garganta, que liberaria quando Hyunjin estivesse todo dentro dele.
— Ah, Lix, você é tão… — Hyunjin sequer conseguiu terminar de falar. Era tão quente, apertado e tão, tão gostoso…
Seu quadril empurrou mais para dentro, com cuidado, até estar completamente dentro de Felix.
Ficaram parados por alguns segundos, suados e tremendo. As respirações estavam ofegantes, e os corações, acelerados. Hyunjin inclinou a testa contra a de Felix e segurou com força nos quadris estreitos.
— Você é meu, não é? — Felix perguntou entre dentes, como se quisesse ouvir aquelas palavras saindo pela garganta de Hyunjin, mesmo que soubesse a resposta. — Diz que você é meu.
Hyunjin, meio aéreo devido aos pequenos choques que cruzavam seu corpo, sorriu torto e apaixonado.
— Sou… — sussurrou, gemendo em seguida. — Eu sou seu, Felix. Eu sou só seu.
— Meu amor — Felix disse contra seus lábios. — Meu moranguinho lindo.... Você tá com tesão?
— Uhum — Hyunjin mordeu os lábios com força, contendo-se para conseguir ficar mais tempo ali.
— Então me fode bem gostoso — Felix incentivou, cruzando as pernas ao redor dos quadris de Hyunjin.
Então, Hyunjin empurrou. Era lento no começo, como se ainda estivesse aprendendo a desvendar o corpo de Felix de novo. Hyunjin sentia as contrações e os suspiros que escapavam de Felix quando ele mudava um pouco o ângulo, fazendo uma chama queimar dentro do seu peito. Suas mãos percorreram os braços, a cintura, as coxas e os quadris, parecendo nunca ficarem satisfeitas.
— Isso — Felix disse entre gemidos. — Isso, meu amor, você é tão bom — mordeu o lábio inferior de Hyunjin, arrancando um gemido doloroso dele.
— Eu sou? — Hyunjin murmurou, a voz baixa e quase chorosa.
— Muito — assentiu. — Vai mais forte. Eu aguento.
Hyunjin obedeceu. Àquela altura, sentia que poderia fazer qualquer coisa que ele pedisse. Seus quadris começaram a bater contra os de Felix com mais força, a cama king size rangendo debaixo deles.
Agora, eles estavam suando, beijando-se e transando como se o mundo fosse acabar a qualquer momento. Felix soltou gritos abafados no pescoço de Hyunjin e o apertou com mais força, arranhando as costas definidas com as unhas curtas. Enquanto isso, Hyunjin choramingava em seu ouvido, soltando barulhos fracos e manhosos de prazer. Felix era tão macio, estava tão molhado e o apertava tanto que Hyunjin sentia que podia perder o controle.
— Eu vou gozar — Hyunjin avisou, os olhos marejados e o estômago se revirando. — Felix…
— Goza, meu amor — ele disse, revirando os olhos. — Goza dentro de mim.
Era tudo que Hyunjin precisava. Ele gemeu alto e se desfez, derramando tudo dentro de Felix, o corpo inteiro tremendo de prazer. Segundos depois, com um último movimento desesperado contra o pau de Hyunjin, Felix também gozou entre eles, com um gemido arranhado, sujando o próprio abdômen. Eles estavam rindo, chorando e suando, tudo ao mesmo tempo.
Ficaram abraçados, ofegantes, o mundo girando devagar ao redor deles. Felix, ainda colocado ao peito de Hyunjin, sorriu cansado antes de dizer:
— Eu sinto que… — engoliu o excesso de saliva na boca, continuando em seguida — Eu sinto que você é meu há muito tempo.
— Quanto… tempo? — Hyunjin perguntou, a testa apoiada no ombro de Felix, ainda tremendo com alguns espasmos.
— Não sei — Felix riu. — Talvez eu tenha te amado em outra vida.
— Não vem com essas coisas — riu abafado.
— É sério — repetiu, também risonho. — Talvez nós tenhamos vivido um romance proibido em uma época antiga, o que acha?
— Não acho que isso exista.
— Mas você acha que alienígenas existem.
— É, mas… não sei. Você pode me contar mais sobre isso depois.
— Quando a gente não estiver grudento, tá bom?
— Tá — Hyunjin riu. — Toma banho comigo? Eu quero que você lave meu cabelo…
— Sempre tão manhoso — Felix o apertou mais forte, com os braços e com as pernas. — Eu lavo seu cabelo, moranguinho, mas, depois…
— O quê?
— Depois, quando a gente estiver no chuveiro, eu quero que você goze pra mim enquanto eu te chupo inteiro — Felix disse entre dentes, fazendo uma onda de arrepios cruzar a coluna de Hyunjin. — Tudo bem assim?
Hyunjin só conseguiu assentir.
E, naquela noite em que passaram juntos, eles entenderam que, na verdade, eles nunca tinham vivido uma mentira.
🫂
Hyunjin estava parado, de braços cruzados sobre o peito e um bico tão grande que parecia um papagaio. Ele estava batendo o pé coberto pelo all star preto no carpete da sala de estar da Stray, e Felix, ao seu lado, tentava mediar a situação.
— É um abraço — disse Felix, segurando-o pela cintura. — Não vai matar nenhum de vocês.
Jeongin, na frente de Hyunjin, vestindo calças pretas de couro e uma camisa branca, revirou os olhos.
Há uma semana, enquanto Jeongin tentava convencer o jornal da faculdade a publicar suas fotos amadoras em um artigo, Felix tentava convencer os dois cabeças duras a irem ao encontro quádruplo que ele planejou. Quando pensou em sair a um restaurante com o melhor amigo, Theo e Hyunjin, não imaginou que fosse ser tão difícil convencê-los a selar a paz com um simples abraço.
— Não vou abraçar ele — disse Hyunjin, evitando contato visual com Jeongin.
— Moranguinho, nós falamos sobre isso.
— Ele é uma bomba relógio, Lix! Vai que ele morde meu braço com esses caninos enormes que ele tem?! — Hyunjin protestou, encarando o namorado.
— Eu não morderia seu braço nem se me pagassem — o alfa respondeu. — Vai que eu te mordo e começo a falar “zonzurência” igual a você?
— Você tá vendo, né? — Hyunjin apontou para Jeongin, indignado. — Ele me provoca e você quer que eu fique quieto.
— Moranguinho, olha, o Ayen prometeu que vai parar com as provocações. — Felix tentou argumentar, percebendo que, quanto mais falava, mais emburrado Hyunjin ficava. — Não foi, Ayen?
Jeongin murmurou algo que não conseguiram entender, mas acenou com a cabeça.
— Vamos lá, façam um esforço. Por mim.
Felix piscou os olhos, juntando um pouco as sobrancelhas. Quando ele fazia isso, seu rosto já delicado se transformava na pura representação de um anjo. Hyunjin olhou para ele, derretendo a pose, e Jeongin deixou os ombros caírem, estalando a língua no céu da boca, rendido.
— Tá bom — Jeongin suspirou, estendendo os braços de má vontade. — Mas eu vou contar até três e solto ele.
— Que seja — Hyunjin resmungou, aproximando-se devagar, como se tivesse indo para a forca.
Jeongin o abraçou, os quadris distantes e os rostos contorcidos em duas caretas. O abraço durou exatos dois segundos e meio — Felix contou mentalmente —, mas foi o suficiente. Quando se separaram, os dois pareciam constrangidos, mas não estavam mais tão hostis.
— Pronto — Felix sorriu, deixando um beijo estalado na bochecha de Hyunjin. — Agora vamos. O coitado do Theo já deve tá cansado de esperar vocês fazendo tanto drama assim.
O apartamento que Theo dividia com outros dois ômegas ficava no centro da cidade. Jeongin pediu as chaves do carro de Changbin emprestadas e dirigiram até lá. Quando chegaram, Jeongin parou o carro com uma ansiedade que não conseguia sequer disfarçar, alisando a camisa branca pela terceira vez.
— Relaxa, Ayen — Felix riu, sentado no banco de trás junto a Hyunjin. — Ele já te viu de bermuda e com areia no cabelo. Não precisa ficar nervoso assim.
— Eu não tô nervoso! — Jeongin disparou, engolindo em seco. Ele mexeu no porta-luvas e tirou de lá um pacotinho de chiclete de hortelã, enfiando um na boca.
Theo apareceu dois minutos depois, vestindo uma calça jeans escura e uma camisa listrada. Seus cabelos loiros estavam perfeitamente bagunçados, e ele sorriu largo quando entrou no carro.
— Oi, gente! — Theo cumprimentou e sentou no banco da frente, inclinando-se na direção de Jeongin para dar um beijo rápido nos lábios dele. — Eu demorei? Acabei ficando em dúvida sobre a roupa.
— Você… está lindo — Jeongin disse, e Felix não deixou de reparar na forma como as orelhas do melhor amigo ficaram vermelhas.
— Oi, Theo — Felix acenou para o ômega. — Esse aqui é o Hyunjin, meu namorado.
— Tudo bem? — Hyunjin sorriu para ele, que estava virando para trás. — Olha, você toma cuidado com esse daí, viu? — apontou para Jeongin. O alfa revirou os olhos e apoiou a nuca no encosto do banco do motorista. — Ele tem aquela doença que deixa a boca dos cachorros espumando.
— Raiva…? — Theo perguntou, cenho franzido.
— É! Do nada, ele começa a rosnar e…
— Ai, o Hyun é tão engraçado! — Felix fingiu uma gargalhada, jogando as mãos no rosto de Hyunjin, apenas para conseguir tapar a boca dele. — Não é, moranguinho?
— Hmhmhmhmhm — Hyunjin tentou falar, mas a mão de Felix ainda estava tapando sua voz.
— Pois é, ele é uma figura mesmo — Jeongin também fingiu uma risada, dando partida no carro.
Theo, com as sobrancelhas juntas, também riu, meio amarelo, meio sem entender o que realmente tinha acontecido ali.
— Ele não é meio parecido com você? — Hyunjin sussurrou no ouvido de Felix, olhando para Theo de canto de olho.
— O quê? Comigo? — Felix arregalou os olhos.
— É, tipo, o cabelo quando você era loiro, e… a boca, o nariz e, meu Deus, os olhos também. Theo, você tem algum primo quehmhmhmhmhmhm.
— O quê? — Theo olhou para trás, tendo a visão de Felix cobrindo a boca de Hyunjin de novo.
— Ah, ele ia te perguntar se... você tem algum primo que também estuda na faculdade — Felix improvisou, sorrindo sem mostrar os dentes. — Porque, sei lá, ele ficou intrigado com o seu… com o seu… é…
— Rosto? — Theo riu, ainda meio confuso.
— Hmhmhmhm — Hyunjin tentou falar, mas a mão de Felix ainda estava na sua boca.
— Isso, isso — Felix assentiu. — Seu rosto. Ele achou seu rosto muito parecido com o de um conhecido e… muito bonito também.
— Ah! Não que eu saiba, mas... Obrigado? Eu acho?
— Não liga pra pro Hyunjin, ele sempre pergunta umas coisas assim — Jeongin entrou na conversa, os olhos focados na estrada. — A língua dele corre mais rápido que o cérebro.
— Olha que eu mordo, hein — Hyunjin murmurou, finalmente se livrando da mão de Felix.
— Eu conto com isso mais tarde — Felix respondeu baixo, com um sorrisinho safado.
— Vocês são sempre assim? — Theo perguntou, ajeitando o cinto.
— Pior que sim — Jeongin respondeu antes que qualquer um pudesse se defender.
Na verdade, naquela noite, ele era quem tinha que se defender.
🍽️
O restaurante que Felix tinha escolhido era simples, com luzes baixas e uma decoração um pouco rústica. Quando chegaram à mesa de quatro lugares, Jeongin, imediatamente, fez questão de puxar a cadeira para Theo, que agradeceu com um sorriso doce.
Felix fez o mesmo para Hyunjin, ganhando um selinho em retribuição. No entanto, não demorou dois segundos na cadeira, levantando-se e correndo até a cadeira de Felix, puxando-a também para ele sentar.
— Obrigado, moranguinho — Felix disse baixinho, sorrindo para ele.
— Eu também sei ser cavaleiro — Hyunjin sorriu, sentando em seu lugar novamente ao lado de Felix.
— Eu acho que é cavalheiro, não? — Theo disse com um sorriso doce e tom amigável.
— E qual a diferença? — Hyunjin perguntou, olhando para Felix, como se ele fosse seu Google pessoal.
— Cavaleiro é alguém que monta um cavalo, enquanto que cavalheiro é um homem bem educado.
— Nossa, mas as palavras são muito parecidas — Hyunjin bufou, apoiando o queixo na palma da mão. — Como vocês querem que decore isso?
— Não precisa decorar, meu amor — disse Felix. — São mesmo muito parecidas, então não tem problema trocar.
— Vocês são fofos — Theo disse, sorrindo ao lado de Jeongin. — Eu fui transferido há poucos meses, mas lembro de ouvir dizer que vocês se odiavam.
— Isso foi no começo — Hyunjin gesticulou, como se aquilo não importasse mais. — Agora, nós nos amamos.
— Sim — Felix sorriu, olhando para ele. — Nos amamos muito.
Para a felicidade de Felix, Jeongin e Hyunjin não trocaram ofensas durante o jantar. Claro, houve um momento em que Hyunjin, sorrindo como uma criança arteira, perguntou quando Jeongin iria tomar “a vacina do rabinho”, só para Felix corrigir dizendo que era a “vacina antirrábica” e ganhar um revirar de olhos do alfa e uma gargalhada divertida de Theo.
No final da noite, os quatro voltaram à Stray. Ao contrário do que Felix imaginou, Jeongin não voltou para deixar Theo em casa, e, durante a madrugada, pode jurar que ouviu risadas e… outros sons vindos do quarto do melhor amigo. Enquanto abraça Hyunjin, que estava perdido em um sono profundo, sorriu. O coração estava tranquilo, em paz, porque, finalmente, parecia que tudo estava encaixado.
📚
Era fim de semana.
Felix e Hyunjin haviam desenvolvido um ritual, que começava na sexta-feira. Mesmo passando a semana inteira juntos, indo e voltando da faculdade e compartilhando as mesmas aulas, eles ainda reservavam aqueles dias preciosos para ficarem tão grudados como gêmeos siameses.
Desde que voltaram, um mês atrás, tudo parecia perfeito. As únicas vezes em que brigavam, era quando não conseguiam decidir que filme iriam assistir. Hyunjin queria ver animações, cansado de tantos documentários sobre o universo, enquanto Felix havia desenvolvido uma pequena obsessão por tubarões, e queria ver todos os filmes existentes sobre peixes gigantes que devoravam seres humanos. Hyunjin quase sempre vencia, mas, nas vezes em que Felix conseguia colocar algum filme de tubarão, Hyunjin ficava duas horas inteiras com as mãos cobrindo os olhos e reclamando de tanto sangue e dentes na tela do computador.
Na sexta, era dia de Hyunjin ir dormir na Stray. No sábado, eles passariam o dia juntos, experimentando receitas de bolo e sujando a cozinha inteira de farinha. No domingo, iriam ao cinema ou ficariam batendo perna em lojas de roupas — sempre saindo com mais de três sacolas.
Hyunjin abriu a porta do quarto de Felix sem bater. Não era como se ele fosse mal educado, mas Felix sempre demorava muito para abrir antes, então, ele apenas criou o hábito de entrar. Quando entrou, encontrou o namorado sentado na cadeira de rodinhas que usava para estudar, dois livros abertos em cima da mesa, um caderno de anotações, muitos marcadores coloridos e os óculos de grau no rosto sem maquiagem. Hyunjin amava vê-lo assim.
— Oi, moranguinho — Felix disse, virando para ele e ergueu o rosto para receber um beijo.
O sorriso quase não deixava o rosto de Hyunjin. Ele jogou a mochila com suas roupas na cama e deu um beijo longo e molhado em Felix, sendo abraçado pela cintura. Quando se separaram, Felix o encarava com tanta ternura que corações brilhantes quase podiam ser vistos nos olhos através das lentes dos óculos.
— Tá estudando o quê? — Hyunjin perguntou, curioso, sentando de lado no colo de Felix na cadeira.
— Teoria da Arte — disse Felix, apontando para o livro.
— E por que você tá estudando Teoria da Arte? — Com o cenho franzido, Hyunjin indagou.
— Porque temos prova na segunda.
— O quê? Prova? Desde quando?
— Desde sempre? — Felix olhou para cima, os cabelos pretos meio presos na cabeça e o rosto sedoso.
— Eu não lembro de prova nenhuma.
— Então quer dizer que você não estudou?
— Hm — Hyunjin mordeu o dedo mindinho, negando brevemente. — Eu estudo amanhã.
— Hyun…
— É sério, amor! — afirmou, abraçando o pescoço do namorado. — Juro de dedinho.
— Quero ver, hein.
— Relaxa — Hyunjin sorriu, arrumando-se melhor no colo de Felix. — Agora deixa esses livros aí e vem deitar comigo…
Hyunjin começou a deixar beijos pelo rosto de Felix, passando pelas bochechas, pela testa e, enfim, no canto dos lábios. Felix mantinha as mãos nas pernas cobertas apenas por uma saia xadrez vermelha, fazendo um carinho gentil na pele macia das coxas do outro ômega. Mesmo assim, ele não cedeu ao pedido tentador de Hyunjin.
— Eu tenho que estudar mais um pouco, meu amor — disse, formando um pequeno bico. — Sabe que se eu não estudar agora, não vou conseguir no restante do fim de semana.
Hyunjin bufou, sabendo que, quando Felix colocava na cabeça que precisava estudar, não tinha como ele mudar de ideia tão fácil.
— Amanhã você pode me explicar o conteúdo. Isso é uma forma de estudo.
— Não vou te explicar o conteúdo, porque você disse que só aprende escrevendo.
— É verdade, mas…
— Sem “mas”, moranguinho — Felix disse, determinado, dando dois tapinhas na coxa nua de Hyunjin. — Meia hora e eu vou deitar com você.
— Ai, tá bom.
Resignado, Hyunjin levantou do colo de Felix. Ainda de pé, olhou para o namorado, que virou novamente na cadeira de frente para a escrivaninha. Ele pegou um dos marcadores, olhos fixos nas letras dos livros.
— Ai, ai… Acho que vou deitar aqui nessa cama enorme sozinhoooo — Hyunjin disse arrastado, ganhando uma risada abafada e um balançar de cabeça do outro ômega.
Hyunjin tirou os all stars amarelos e apoiou as mãos e os joelhos no colchão, engatinhando até a outra extremidade da cama. Deitou de costas, o cropped branco que usava deixando sua barriga inteira à mostra.
De onde estava, Hyunjin tinha uma visão perfeita de Felix estudando. Seu namorado vestia uma calça moletom larga e uma camiseta duas vezes maior do que seu número. Os cabelos meio presos estavam lisos e perfumados, sinalizando que ele tinha tomado banho há pouco tempo. No rosto perfeito, os óculos de grau que Hyunjin achava combinarem tão bem com Felix.
Não era algo que ele nunca tivesse admitido para si mesmo antes, mas Hyunjin não conseguia evitar o calor que percorria seu corpo sempre que via Felix daquele jeito. As roupas largas, tão diferentes dos tops e das saias provocantes que ele usava, o rosto limpo, sem maquiagem, e os óculos que ele só usava em casa… Era como se ele estivesse vendo uma versão apenas dele de Felix, que ninguém mais tinha acesso. E aquilo o deixava com tesão.
Respirou fundo, as pernas dobradas, com as solas dos pés contra o colchão. Ele balançou os joelhos, um dos dedos mexendo em uma mecha de cabelo castanho que caia pelo travesseiro. Mordeu o lábio inferior, sentindo seu corpo inteiro pedir pelo outro ômega. Não sabia se pelo seu cio estar perto — sempre chegava no outono —, ou se era puro desejo pelo namorado, mas ele não estava conseguindo se concentrar em mais nada, mesmo que por trinta minutos.
Hyunjin puxou mais ar para dentro dos pulmões, tentando controlar as batidas fortes do coração, ansioso. Com as pernas ainda dobradas, ele as abriu. Não estava usando nenhum short por baixo, como geralmente usava quando usava saias, porque sabia que não iria precisar deles no quarto de Felix. Se ele virasse um pouco o rosto, conseguiria ver a calcinha vermelha que Hyunjin usava, premeditada para enlouquecê-lo aquela noite, e a mão direita dele esfregando de leve a ereção já marcada na renda fina.
Mas Hyunjin não o chamou.
Ele suspirou baixinho, ainda provocando-se na cama de Felix, olhando para ele enquanto estudava, vendo como as costas dele pareciam tensas e como o corpo se curvava levemente sobre a escrivaninha. Hyunjin o amava tanto, e amava todo o corpo dele. Amava os braços finos, as pernas, os quadris estreitos, a barriga definida, cheia de gominhos… Amava o pau dele e como era grosso, amava a bunda dele, macia e redonda. Amava quando ele o fodia forte, mas também quando fazia com carinho, amava quando ele rebolava no seu colo e deixava seu pau ir fundo dentro dele, enquanto beijava seu rosto e dizia como ele tinha um pau gostoso. Eles eram tão compatíveis que Hyunjin sequer conseguia entender como não eram biologicamente feitos um para o outro.
A falta do nó não fazia falta para Hyunjin agora, sequer para Felix. Tudo que precisavam era dos corpos um do outro, dos dedos, da língua e do pau, sempre tão molhados e macios, esfregando-se juntos naquela cama, ou no banheiro, ou nos banheiros da faculdade. Eles estavam vivendo um sonho.
Vazando e com o pau duro sob a calcinha, Hyunjin sorriu de lado. De repente uma ideia suja surgiu em sua mente. Ele ergueu um pouco os quadris, o bastante para eles desgrudarem do colchão. As mãos entraram por baixo da saia quadriculada e os polegares se enfiaram no elástico fino da calcinha. O tecido vermelho passou pelas coxas e findou nos tornozelos. Quando, finalmente, estava fora do seu corpo, Hyunjin a deixou entre os dedos.
— Amor? — Hyunjin chamou, a voz manhosa e cheia de segundas intenções. — Quanto tempo mais vai ficar estudando?
Felix, sem se virar para ele, olhou no relógio digital que tinha ao lado do computador.
— Mais vinte e cinco minutos.
— Tudo isso? — bufou, ainda com a calcinha na mão. — Acho que vou ter que começar sozinho, então.
— Do que você tá…
Felix girou a cadeira, virando-se para ele. Quando seus olhos bateram naquela figura deitada em sua cama, ele achou que fosse desmaiar.
Mesmo já tendo visto Hyunjin pelado vezes demais para contar, Felix nunca deixaria de se surpreender com o quão perfeito ele era. Hyunjin estava deitado, com as pernas abertas. A saia não cobria quase nada, e a calcinha, vermelha e de renda — Felix lembrava bem de uma igual àquela — estava na mão direita dele.
Os olhos de Hyunjin estavam flamejantes, cheios de um desejo que Felix amava ver no rosto dele. Afastou ainda mais as pernas, e Felix conseguiu ver a lubrificação escorrendo até embaixo e o pau, grande e duro, batendo contra o baixo ventre.
— Tudo bem eu brincar sozinho um pouquinho? — Hyunjin perguntou, a mão que não segurava a calcinha indo até o pau, apertando-o por baixo da saia.
Ele começou a movimentar a mão lentamente, brincando com a glande, fazendo movimentos circulares com o polegar. Felix engoliu em seco e encarou o teto, pedindo forças, mas seu pau não o deixaria fingir que não foi afetado.
Felix fechou os olhos por um segundo. Tentou lembrar de todos os conteúdos que ainda precisava revisar, das páginas grifadas com os marcadores coloridos, das anotações no caderno. Tentou se apegar a qualquer resquício de foco, mas tudo escorria pelas fendas da concentração, à medida que ouvia o barulho úmido dos movimentos de Hyunjin. Quando voltou a encará-lo, Felix viu a expressão manhosa que ele fazia de propósito, com aquele sorrisinho de canto que era um aglomerado de malícia e charme, condensados em uma estratégia clara de provocação.
— Isso não é justo, moranguinho — Felix sussurrou, as mãos sobre os joelhos.
Hyunjin sorriu e, em um movimento rápido, atirou a calcinha vermelha na direção de Felix. Ele deixou o tecido rendado cair em seu colo e, com os dedos suados, tocou naquele pedaço de pecado vermelho. Hyunjin sorriu, ainda apertando o pau devagar, atento às expressões do namorado.
— Porra — disse Felix.
Ele não resistiria mais.
Com o pau duro sob a calça e sua lubrificação deixando sua bunda molhada e escorregadia, Felix apertou aquela calcinha entre seus dedos e levou até o nariz. O cheiro de mel inebriou todos os seus sentidos, e ele ouviu a risadinha maliciosa e satisfeita vindo de Hyunjin.
— Você adora me provocar, né? — Felix disse, remexendo-se na cadeira.
— Ué — Hyunjin mordeu o lábio, a voz quase inocente. — Eu só tô respeitando seu tudo de estudos. Sabe, Teoria da Arte é muuuuito importante, e você disse que precisava de vinte e cinco minutos, lembra?
Felix gemeu baixinho, derrotado, porque sabia muito bem que Hyunjin estava usando aquele tom de voz que fazia todas as armaduras de Felix derreterem. As provocações disfarçadas de ingenuidade, o jeitinho dengoso, como se fosse a pessoa mais obediente do mundo, quando, na verdade, era um pequeno diabo.
— Continua, então — Felix disse, juntando as pernas. — Já que começou sozinho, quero ver até onde você consegue ir.
Hyunjin arqueou uma das sobrancelhas, adorando o desafio. Ele se apoiou no cotovelo, nunca deixando de encarar o namorado. A mão que estava em seu pau desceu até o meio da bunda, esfregando as pontas dos dedos no buraco que vazava lubrificação. Felix achou que fosse gozar quando viu Hyunjin enfiar dois dedos de uma só vez, os lábios se partindo em um gemido mudo. Ele jogou a cabeça para trás, começando a empurrar os dedos para dentro, sem pressa. Escorregavam para dentro, depois saiam com um barulho molhado, e Hyunjin soltou um suspiro longo, propositalmente alto, sabendo o que provocaria em Felix.
— Você vai ficar só me olhando? — Hyunjin perguntou, mordendo os lábios em seguida. — Ou vai ficar aqui e me comer do jeito que eu gosto?
Felix levou menos de um segundo para levantar da cadeira. Os livros foram abandonados, os óculos ficaram esquecidos na mesa, e ele trilhou os poucos passos até a cama. A calcinha ficou perdida no colchão, talvez Felix a roubasse para deixá-la debaixo do seu travesseiro novamente, como nos velhos tempos.
Hyunjin riu, triunfante.
— Você é tão fácil — sussurrou, as pernas se abrindo mais, em um convite obsceno.
— Não — Felix respondeu, já entre as pernas dele, deitado de bruços, empurrando a saia de Hyunjin para cima com as duas mãos. — Eu só sou completamente obcecado por você.
Antes que Hyunjin conseguisse soltar qualquer resposta, a língua de Felix já estava pressionada contra seu períneo. Ele lambeu devagar, passando por cada canto de pele, até chegar à glande. Hyunjin sempre enlouquecia com a boca de Felix, como dele fazia tudo devagar, como se estivesse comendo um doce. Felix beijou a ponta, depois engoliu tudo de uma vez, fazendo Hyunjin soltar um gemido rouco e arquear as costas e do colchão.
Os dedos de Hyunjin agarraram os lençóis, sem controle. Cada vez que sentia seu pau indo mais fundo na boca de Felix, uma bomba relógio ficava mais perto de explodir dentro dele. Felix chupou forte, então voltou a brincar com a língua na glande, apenas para voltar a engolir novamente. Hyunjin puxou os cabelos lisos com uma das mãos, a outra presa no edredom.
— Porra… porra, amor — Hyunjin sussurrou, o quadril se movendo para cima. — Eu vou gozar assim…
Felix se afastou só por um momento, os lábios molhados, o rosto corado, os olhos cheios de um brilho de tesão que fazia Hyunjin puxar o ar por entre os dentes.
— Você queria atenção, não queria? — Felix perguntou. — Então você vai ter minha atenção.
Felix abaixou a cabeça de novo, agora, lambendo-o bem no meio, devagar, enquanto uma das mãos escorregava pelas coxas macias. Hyunjin teve que abafar um grito com a palma da mão quando Felix começou a masturbá-lo enquanto lambia sua entrada, o corpo inteiro arqueando e tremendo. Felix sabia ser cruel quando queria.
— Amor — Hyunjin choramingou, manhoso. — Coloca, por favor… coloca seus dedos.
Sem discutir ou alongar as provocações, Felix colocou um dedo. Hyunjin quase flutuou com o prazer que atravessou seu corpo. Seu pau latejou, a respiração descompassada, e ele não conseguia parar de gemer entre um suspiro e outro.
Mais um dedo entrou. Depois, outro, enquanto Felix lambia seu períneo e subia pelo seu pau.
Hyunjin gozou com força na boca de Felix, a mão ainda pressionando os lábios, para não chamar a atenção de qualquer um que estivesse passando pelo corredor. Seu corpo inteiro tremeu, os quadris se erguendo, e ele sentiu tudo sair de uma vez, explodindo em puro prazer. Felix continuou chupando até que os espasmos parassem.
Felix engatinhou por cima, beijando a coxa pálida, depois a barriga, o peito, o queixo, até, enfim, deitar por cima de Hyunjin.
Seus corpos se encaixaram com uma facilidade quase suja, mas quente. Felix beijou Hyunjin como se quisesse lambê-lo por dentro, a língua preguiçosa, os quadris empurrando contra os dele, já dizendo o que ele queria. O corpo de Hyunjin tremia pelo recente orgasmo, mas ainda estava responsivo.
— Me vira — Hyunjin pediu, a voz mole, viciada no namorado. — Quero sentir você me abrindo inteiro.
Felix deu um sorriso de lado e o virou no colchão, puxando-o pelas coxas até deixá-lo de quatro, com a bunda erguida e a cabeça afundada no travesseiro. Hyunjin arfou, gemendo sem mais nenhum resquício de vergonha, as costas arqueadas e a abertura ainda molhada e pulsando, embora sensível.
— Caralho — Felix disse, segurando um dos lados da sua bunda com força. Não pôde evitar deixar uma mordida forte na carne macia, observando a marca vermelha aparecer. — Você me deixa doente.
Não demorou mais do que alguns segundos para Felix tirar a calça moletom e a camiseta, ficando nu sobre o colchão. Estava tão excitado, que tinha a impressão que gozaria muito rápido. Felix tocou na própria glande, roçando-a na bunda de Hyunjin, apenas para ouvi-lo gemer. Hyunjin rebolou contra ele, querendo mais.
— Coloca — Hyunjin sussurrou. — Me fode logo, por favor.
Felix o segurou pela cintura e, finalmente, empurrou para dentro. Hyunjin gemeu com o rosto no travesseiro, agarrando os lençóis com força.
Felix começou a se mover forte, o som molhado preenchendo o quarto. Hyunjin sentia um alívio misturado com um castigo a cada estocada, os quadris de Felix batendo contra os seus. Felix o segurava firme, puxando-o para trás sempre que ia mais fundo.
— Você parece que foi feito pra mim — Felix sussurrou, curvando sobre as costas suadas de Hyunjin.
— Eu fui — choramingou, quase perdendo o controle da voz.
Felix gemeu baixo, mordeu o ombro dele e os movimentos ficaram mais desesperados, quase erráticos. Hyunjin já estava tremendo de novo, o pau duro entre as coxas, roçando no colchão e vazando sem parar, mesmo que já tivesse gozado.
— Hm… Felix — Hyunjin gemeu, a cabeça girando. — Felix, amor… Porra, você fode tão gostoso…
— É? — Felix sorriu enquanto o fodia, apertando mais seus quadris.
— Sim, demais…
Felix enterrou com força uma última vez e gozou com um gemido abafado. Hyunjin sentiu o calor preenchê-lo por dentro, arrepiando a pele suada. Sem sequer se tocar, Hyunjin gozou uma segunda vez, ofegante, grudento, suado e sem forças para sequer falar.
— Eu te amo tanto — Felix sussurrou, beijando seu ombro.
— Eu também te amo muito — Hyunjin respondeu com um sorriso preguiçoso.
Eles conseguiram se arrastar até o banheiro e tomaram um banho rápido, sem pausas para outras coisas. Quando voltaram para a cama, Hyunjin tentou se aconchegar, mas Felix tinha outros planos.
— Agora eu posso estudar? — Felix perguntou baixinho, deixando beijos preguiçosos no rosto ainda corado de Hyunjin.
— O quê?
— Eu ainda tenho um capítulo inteiro pra revisar.
— Ah, sério? — resmungou, a voz sonolenta. — Você vai me deixar aqui de novo enquanto volta a estudar?
Felix riu baixinho, aninhando-se sobre ele, o nariz pressionado contra a bochecha de Hyunjin. Do seu moranguinho.
— Eu preciso, meu amor — ele disse, os lábios roçando a pele macia do outro ômega.
Hyunjin revirou os olhos, mas não conseguiu conter o sorriso que crescia em seu rosto. Suas mãos subiram pelas costas de Felix, acariciando o tecido macio da camiseta larga.
— Então vem estudar aqui na cama — ele disse, aconchegando-se mais. — Fica aqui deitado comigo e lê em volta alta. Talvez eu entenda alguma coisa sobre o blá blá blá da percomatividade.
— Moranguinho! — Felix gargalhou, afundando o rosto no pescoço suado e cheirando a mel. — Performatividade! Essa palavra você nunca tinha errado.
— Ai, é que eu ainda tô mole… — Hyunjin murmurou com um bico nos lábios. — Mas você entendeu. Vem pra cá, e se eu dormir, a culpa vai ser sua por ter me feito gozar duas vezes.
Felix soltou um suspiro derrotado, mas seu sorriso era tão bobo quanto o de Hyunjin.
— Você é um caso perdido, sabia?
— Eu sei, e você me ama mesmo assim — Hyunjin respondeu, esticando o pescoço para beijá-lo nos lábios.
Felix riu e levantou para buscar o livro que outrora lia, junto com os óculos de grau. Deitou ao lado dele e começou a ler, a voz grande e rouca tranquila enquanto seus olhos deslizavam pelas páginas. Hyunjin fechou os olhos, ouvindo mais o som da voz do namorado do que o significado das frases complexas que ele lia. O corpo estava relaxado, e o coração, completamente aquecido.
Talvez Hyunjin não aprendesse muito sobre Teoria da Arte naquela noite. Talvez ele não aprendesse muito sobre o universo, constelações, desenvolvimento de sistemas, ecologia, tubarões ou qualquer outra coisa que Felix gostasse de estudar.
Mas ele havia aprendido uma coisa muito mais importante com aquele ômega com cheiro de pêssego: a amar.
🍓
Mesmo no outono, sem conseguir usar todos aqueles shorts curtos e os tops que mais mostravam do que cobriam, Hyunjin não perdeu o hábito de ir à pequena lanchonete na entrada do campus e pedir uma raspadinha de morango.
Naquela tarde, eles juntaram duas mesas, o suficiente para que todos os quatro casais pudessem sentar juntos. Jeongin e Theo estavam namorando sério, o que era bom, já que o humor do alfa estava bem melhor do que costumava ser antes. Changbin e Seungmin continuavam em um relacionamento aberto bem liberal — que arrepiava os poros de Hyunjin, porque, fala sério, como alguém deixava o namorado beijar outro bem na sua frente? — e que funcionava para eles. Minho e Jisung eram como um casal de velhos, ciumentos e melosos, mas perdidamente apaixonados.
E Felix e Hyunjin, bom… Eles eram Felix e Hyunjin.
— Tá ventando, amigo — disse Jisung, perdido dentro de um casaco do namorado, que estava ao seu lado. — Toma um chocolate quente, um chá, sei lá, um café, mas não toma essa raspadinha.
— Amor, ele continua falando mal da minha raspadinha — Hyunjin disse, olhando para Felix.
— Olha, Jisung, nem é tão ruim assim… — Felix tentou defender, um dos braços ao redor dos ombros de Hyunjin. — Você já experimentou?
— Já, e eu não quero passar por essa tortura de novo — Jisung tremeu o corpo, parecendo lembrar do sabor aguado e doce da bebida preferida de Hyunjin.
— Isso porque você tomou no verão — Hyunjin rebateu, ofendido, quase como se Jisung estivesse falando mal de suas mães. — No outono, o sabor muda completamente. Fica mais… poético, eu acho.
— O quê? — Seungmin fez uma careta misturada com uma risada abafada. — Você acabou de dizer que vê poesia na sua raspadinha?
— É, exatamente isso — Hyunjin confirmou. — E vocês — apontou para todos — deveriam experimentar. Vai mudar suas vidas pra sempre.
Theo riu baixinho, apoiando o queixo no ombro de Jeongin.
— Você quer que passemos frio junto com você?
— Não, isso é só solituriedade comigo.
— Solituriedade? — Changbin indagou.
— Ele quis dizer solidariedade — Felix respondeu com um meio sorriso.
— Isso, solidariedade — assentiu várias vezes. — Olha só, por que não fazemos assim: se ninguém gostar, eu pago lanche pra todo mundo amanhã. Mas, se gostarem, vocês nunca mais vão zoar minha raspadinha.
Minho levantou uma sobrancelha, curioso.
Em poucos minutos, Hyunjin conseguiu convencer um por um, como se fosse algum tipo de messias das raspadinhas de morango. Ele voltou do balcão triunfante, equilibrando sete copos de gelo com essência de morango e açúcar.
— Aqui está, senhores — disse Hyunjin, colocando os copos em cima da mesa. — O néctar dos deuses.
Cada um pegou sua raspadinha e, entre risadas, começaram a experimentar. Theo e Jeongin fizeram caretas. Seungmin pareceu dividido. Felix fingiu que estava maravilhoso, só para apoiar Hyunjin, e Jisung, bem… Jisung cuspiu na calçada.
— Isso ainda é horrível! — ele disse, limpando a língua com o guardanapo. — É como se uma unidade de morango tivesse sido diluída em três litros de água e depois alguém jogasse uma xícara de açúcar por cima.
Hyunjin fez um pequeno monólogo para o melhor amigo, que apenas começou a abrir e a fechar a mão na sua direção, esnobando seus argumentos.
Enquanto todos continuavam a experimentar as raspadinhas, uma figura familiar apareceu na lanchonete. Era Christopher.
Ele sentou em uma mesa ao lado, sozinho, com um café preto e um caderno fechado à sua frente. O alfa não usava mais a jaqueta do time, que ficaria no armário até o próximo verão, e, agora, usava um moletom preto.
Minho percebeu a presença dele primeiro, e cutucou Changmin com o cotovelo, apontando com o queixo para ele.
— Olha — disse ele. — O Chris.
Changbin seguiu o olhar de Minho. Christopher parecia fingir que não via todos ali, mas era óbvio que ele tinha percebido.
— Ele tá sozinho — Minho disse novamente, agora, para todos ouvirem.
— E? — Changbin perguntou.
— E… sei lá — deu de ombros, mas continuou. — A gente já foi amigo dele.
— Ele é um babaca — Jeongin soltou, imediatamente. — Foi um escroto com o Felix e com o Hyunjin e ainda quis pagar de coitado fazendo aquela cena na praia. Deixem ele sozinho. Não é problema nosso.
— Cara, eu não tô dizendo que precisamos virar os melhores amigos dele — Minho disse, dirigindo-se a Jeongin, que encolheu os ombros. — Mas estamos em oito em uma mesa e ele tá, tipo, a dois metros, sozinho. É esquisito.
Felix ouvia tudo em silêncio, ainda sugando a raspadinha pelo canudo. Ele não pôde evitar olhar para Christopher, os olhos encontrando os dele por um segundo. Ele e Hyunjin, então, se olharam, e um sorriso pequeno e quase maldoso apareceu nos lábios dos dois.
— Tudo bem — Felix disse, levantando-se.
— O quê? — Jeongin arregalou os olhos, as mãos de Theo em seu braço direito, quase para evitar que ele fizesse algo. — Não, Felix, você não vai chamar ele. Ele não merece.
— Cãozinho, digo, Ayeeen — Hyunjin disse, também levantando-se. — Melhor ficar quieto. Theo, Jisung, Seungmin? — Ao chamar os ômegas, os três o olharam. — Hora de mostrar pra um alfa xexelento o que ele ganha sendo um canalha com ômegas. O que acham?
— Isso vai dar merda — Seungmin disse, já levantando.
Ao verem Felix e Hyunjin com as raspadinhas nas mãos, os três ômegas, sem questionar, também se muniram da bebida de morango.
Em poucos segundos, Christopher se viu encurralado por cinco ômegas. Cauteloso, ele levantou os olhos.
— Oi, Chris — Hyunjin disse, sorrindo aberto para ele.
— Arn… Oi, Hyun — ele respondeu, coçando a nuca. — E Felix. E Jisung. E Seungmin. E… Quem é você?
— Ah, eu sou o Theo! Muito prazer! — estendeu a mão para o alfa, simpático, mas Felix abaixou o punho dele lentamente, e o sorriso no rosto de Theo foi morrendo aos poucos.
— Olha, eu só sentei aqui pra tomar meu café. Eu não quero incomodar.
— Você não vai incomodar, Chris — disse Felix, uma voz calma e um sorriso quase psicótico no rosto. — Viemos só te dar uma coisa.
Christopher engoliu em seco, os olhos passando de um ômega para outro. Ele sabia exatamente o que tinha feito durante anos. Ele era um canalha antes de namorar Hyunjin e continuou um canalha até perceber que estava estragando sua vida. Agora, cercado, ele quase conseguia sentir o sabor doce na língua.
— Eu… mereço — disse Christopher, resignado.
— Merece, sim — Hyunjin confirmou, ainda sorrindo. — Então fica quietinho aí.
Hyunjin deu um tapinha no ombro de Theo, incentivando-o a ir primeiro. Com um movimento delicado, ele virou o copo de raspadinha sobre a cabeça de Christopher. O líquido rosa e gelado escorreu pelos cabelos escuros do alfa, pingando no moletom preto e formando pequenas poças no chão.
— Desculpe — Theo sussurrou com uma voz doce, fazendo uma careta de arrependimento.
Christopher apenas fechou os olhos, sentindo o frio descendo pela nuca. Não protestou, apesar de tudo.
Seungmin foi o próximo. Ele não hesitou. Com uma risada maligna, ele despejou a raspadinha, fazendo com que o alfa tremesse quando o gelo bateu em seu rosto.
— Ninguém fode outro quando está em uma festa com alguém, cara — disse Seungmin, simples.
Jisung se aproximou, o copo nas mãos tremendo levemente, não de medo, mas de uma raiva que vinha nutrido há meses e que parecia querer eclodir naquele instante.
— Isso é pelo que fez com meu melhor amigo, seu imbecil — disse Jisung, antes de despejar todo o líquido do copo.
Felix, então, parou na frente de Christopher. Ele parou, encarando os olhos de Christopher por um momento. O alfa estava encharcado, assim como ele ficou naquele dia em que Hyunjin descobriu as mensagens que eles trocavam.
— Você me deixou muito irritado — Felix disse, baixo. — Mas você machucou o Hyunjin, e eu não deixo barato quem machuca o meu moranguinho.
Ele virou o copo, deixando que a raspadinha caísse e se acumulasse nos cabelos de Christopher.
Por fim, Hyunjin se aproximou dele. Christopher levantou os olhos para ele, completamente molhado de gelo e essência de morango.
— Hyun… — ele começou.
— Shh — Hyunjin o interrompeu, balançando o dedo indicador. — Minha vez.
Ele despejou a raspadinha na cabeça de Christopher com uma precisão quase artística, certificando-se de derramar cada goda. Não era como se fosse a primeira vez.
— Pronto — disse, dando um passo para trás para admirar sua obra de arte. — Agora você tá devidamente perdoado.
— O quê? — Christopher piscou os olhos, olhando para os ômegas. — Eu tô…
— É, Chris — Hyunjin suspirou, segurando na mão de Felix. — Perdoado.
Christopher estava completamente encharcado, o moletom colado ao corpo, cabelos pingando uma mistura caótica de gelo e morango. Ele limpou o rosto com as mãos, piscando algumas vezes, mas, no fim, sorriu.
— Obrigado — disse Christopher.
Os cinco ômegas se entreolharam. A raiva que tinham carregado por muito tempo — menos Theo, que sequer entendia muito bem porque estava derramando raspadinha em Christopher Bang —, parecia ter se dissipado com o último pingo de raspadinha.
Hyunjin observou Christopher por um longo momento. O alfa parecia quase patético, derrotado, mas havia algo de diferente nele, que vinha notando desde o dia em que ele o parou na cozinha da JJAM para pedir perdão pela primeira vez. A arrogância que antes ele carregava foi substituída por uma vulnerabilidade que aqueceu o coração de Hyunjin.
Lentamente, surpreendendo a todos, inclusive a si mesmo, Hyunjin estendeu a mão para Christopher.
— Levanta — ele disse, a voz mais suave. — Vem sentar com a gente.
Christopher arregalou os olhos, olhando para a mão do ômega como se tivesse visto um fantasma.
— Você… Tem certeza?
— Não — Hyunjin disse, sincero. — Mas eu tô te chamando mesmo assim, arriscando levar uma mordida do Jeongin. Aceita ou não?
Christopher olhou para a mão de Hyunjin, depois, para os outros ômegas, em seguida, para a mesa onde os alfas observavam tudo com expressões que misturavam choque e curiosidade.
Hesitante, ele estendeu a mão e segurou a de Hyunjin.
— Obrigado — ele disse, novamente.
Hyunjin o puxou para cima, e eles caminharam de volta para a mesa. Christopher ainda pingava, deixando um rastro de gelo vermelho por onde passava.
— Alguém tem uma toalha? — Felix perguntou com um meio sorriso, observando Christopher se sentar cautelosamente em uma das cadeiras.
— Eu tenho lenços — Minho ofereceu, ainda processando tudo o que tinha acabado de presenciar.
Christopher aceitou os lenços com um "obrigado" quase inaudível, tentando se secar, sem muito sucesso.
— Então — Jeongin disse, quebrando o silêncio, braços cruzados e uma expressão nada feliz. — Alguém quer explicar o que acabou de acontecer?
Hyunjin se sentou ao lado de Felix novamente, puxando seu braço ao redor dos próprios ombros. Eles se olharam, deram um sorrisinho e, em seguida, um selinho demorado.
— Justiça eclética — eles responderam no mesmo instante, caindo na gargalhada.
— Quisemos dizer justiça poética — Hyunjin corrigiu, deitando a cabeça no ombro do namorado.
— E nada mais poético do que fazer justiça com uma raspadinha, não é, moranguinho?
— Eu concordo — respondeu, recebendo um beijo no topo da cabeça.
Eles gargalharam, mesmo Jeongin tendo que morder o lábio para não sorrir, ainda visivelmente irritado, mas, agora, menos disposto a brigar com Christopher. Ele, por sua vez, mesmo encharcado, deixou o corpo afundar na cadeira, entre os restos pegajosos de sua penitência. Pela primeira vez em muito tempo, sentia-se parte de alguma coisa. Ali, ele era só um cara tentando recomeçar, fazer as coisas diferentes, rodeado por pessoas que ainda sabiam rir e, mesmo depois de muita merda, abrir espaço para um pouco de perdão.
Já Felix e Hyunjin, era como se eles tivessem se perdido na mesma nebulosa, os dois orbitando um ao redor do outro, com a certeza que acompanhava corpos celestes destinados a se colidirem, não resultando em destruição, mas em criação. Um amor que começou com o ódio e evoluiu para uma mentira: um namoro falso para enganar aquele que cheirava a açúcar e tentava participar da conversa, ainda meio envergonhado.
Felix era a estrela cadente que cruzou o céu de Hyunjin quando ele menos esperava, rasgando, com lampejos luminosos, as armaduras que ele havia criado, deixando para trás o rastro doce daquela arrogância quase crônica. E Hyunjin… ele era como aquela galáxia espiralada, complexa e bonita, que parecia girar ao redor de si mesma até encontrar um ponto de gravidade que fizesse tudo fazer sentido.
E esse ponto era Lee Felix.
Juntos, eles eram um sistema desajustado, mas que, estranhamente, parecia em equilíbrio.
Era estranho pensar que tudo tinha começado com um namoro falso, uma encenação que era mais para eles mesmos do que para qualquer outra pessoa. Mas o gosto da verdade, vermelho, doce e um tanto aguado, sempre esteve lá em cada beijo que trocaram.
Afinal, o amor deles não era feito de lógica, de palavras bonitas e frases bem ensaiadas na frente do espelho. Não era capaz sequer de ser descrito por uma oratória perfeita e um discurso impecável. O amor deles era feito de passos de danças sincronizados, de beijos molhados, de mel, pêssego, de galáxias inteiras que cabiam dentro dos olhos brilhantes, de selinhos apaixonados e de um simples "moranguinho" sussurrado no meio da aula.
O amor deles tinha gosto de raspadinhas de morango, de mãos dadas hesitantes, de trocas de olhares temerosos. Era feito de provocações que disfarçavam o carinho, de brigas que terminavam em beijos desesperados e de noites em que bastava encostar o nariz um no outro para o mundo inteiro ficar em silêncio. O amor deles era feito de universos que se expandiam toda vez que um dizia "fica", e o outro, sem pensar, ficava.
Porque, mesmo com a linha temporal mal ajustada e sentimentos tão complicados quanto os cálculos do espaço-tempo, Felix e Hyunjin encontraram algo que nenhuma lógica poderia prever: um amor real, tão absurdo quanto inevitável.
